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Carnage

Ano: 2011

Realizador: Roman Polanski

Actores principais: Jodie Foster, Kate Winslet, Christoph Waltz

Duração: 80 min

Crítica:  Vamos esclarecer uma coisa logo à cabeça. ‘Carnage’ (em português 'Deus da Carnificina'), o último filme realizado por Roman Polanski (‘La Vénus à la fourrure’ chegará aos cinemas no final de 2013), é genial. E não só é genial, como foi um dos melhores filmes de 2011. É uma ‘tour de force’ de actuação, com um argumento muito bem construído (baseado na peça de teatro com o mesmo nome da escritora Yasmina Reza que ganhou o Tony de melhor peça original em 2009).

Só se pode compreender que ‘Carnage’ esteve fora da época de prémios de 2011 por duas razões simples. A primeira foi que, na altura em que se viu em Portugal (eu vi-o uma semana antes de ‘The Artist’ por exemplo), ainda não tinha estreado em Inglaterra e só tinha tido uma distribuição praticamente limitada a festivais nos Estados Unidos. Ou seja, um ano depois, na época de prémios seguintes, já ninguém se lembra que estes filmes estreados em Janeiro e Fevereiro existem e são elegíveis. Esta sina, esta memória passageira, não só faz com que a maior parte dos filmes Óscar agora estreiem em Novembro/Dezembro, como causou já grandes injustiças, a meu ver (‘Gran Torino’, por exemplo, não esteve nomeado para os Óscares precisamente porque surgiu na época ‘morta’ de Janeiro). Em ‘Carnage’ estava, claramente, um potencial melhor filme, melhor actor e melhor actriz. A segunda razão (e para a tal distribuição limitada na América) é que Polanski não é visto com bons olhos por aqueles lados (por estar ‘fugido’ da justiça americana). Os seus filmes em inglês sofrem, a maior parte das vezes, tentativas claras de boicote. ‘Carnage’ é tão bom que parece inexplicável que tenha passado ao lado da maior parte do público, mesmo do público mais atento.

Filmes baseados em peças de teatro (muitos filmados ostensivamente como tal) foram comuns em Hollywood praticamente até 1980, mas depois com o aumento da espectacularidade das produções caíram em desuso. Já em 1966, ‘Who's Afraid of Virginia Woolf?’, da peça de Edward Albee, vencedor de 5 Óscares, fica para a história por ter os seus únicos 4 actores nomeados para o Óscar (as 2 mulheres ganharam). (Um aparte: na realidade não é bem assim visto que havia mais meia dúzia de actores em papéis minúsculos; empregado de café, etc). Filmes baseados em peças de Neil Simon (Barefoot in the Park, Odd Couple) ou até ‘Dial M for Murder’ de Hitchcock, funcionam com poucos actores e com a acção praticamente confinada a uma única divisão. Não deixam de ser grandes filmes, e para funcionarem precisam de 2 coisas: de grandes actores que consigam cativar, e de um realizador inventivo que consiga criar infinitos planos de câmara numa pequena sala.

Pois bem, ‘Carnage’ tem 4 actores geniais (ou melhor 3 mais 1, visto que John C. Reilly está um passo atrás de Jodie Foster, Kate Winslet e do glorioso Christoph Waltz – como foi possível esperar 25 anos de carreira para o resto do mundo fora da Alemanha saber que existia um actor assim!). E para além disso tem um realizador que sabe muito bem o que faz e um argumento que literalmente fala por si. Com apenas 75 minutos, o pacote é incrível e não há um momento em que o público perca a atenção.

Tirando os créditos iniciais, em que vemos ao longe uma discussão de dois miúdos de 10 anos num parque e em que um por fim acaba por agredir outro, todo o filme se passa num apartamento e com apenas 4 actores. Foster e Reilley são os pais da criança agredida. Winslet e Waltz são os pais da criança agressora. Encontram-se para que Winslet e Waltz assinem uma declaração amigável de culpa e de pagamento dos tratamentos dentários. Contudo, a progressão da conversa impede-os de ir embora, uma vez tratados os documentos. Primeiro é a decência e a conveniência social que os impede de sair. Depois, algo comicamente, ostensivamente querem ir-se embora. Chegam até a ir até ao elevador 2 ou 3 vezes. Mas um ponto qualquer da conversa, uma discussão que não pode ficar a meio, faz com que regressem sempre ao apartamento e que a conversa continue.

Inicialmente a conversa é algo cliché, o ‘fazer sala’. Depois os ânimos vão-se exaltando, e aí sim o argumento ganha ritmo, a qualidade dos actores vem ao de cima, e a discussão vai muito mais além dos miúdos e de quem tem a culpa, para se infiltrar directamente nos pais e na sua própria maneira de ser, nas suas crenças e convicções. Foster é uma dona de casa obsessiva com ideias nobres de ajudar as crianças em África, e noções muito estereotipadas do bem e do mal. Reilley é um pau mandado que trabalha na indústria dos equipamentos do lar. Winslet é de famílias ricas, mas é Waltz que é o mais brilhante de todos, como o advogado que não consegue largar o telefone, e que tem um olhar cínico sobre toda a situação. Em linguagem corrente ‘é o rei de toda aquela macacada’, e se ganhou já dois Óscares pelos seus papéis nos filmes de Tarantino, então aqui merecia ainda mais um terceiro. À medida que a situação e a discussão entram em proporções épicas (com alguns escapes cómicos inesperados e realmente engraçados) cada um dos 4 capitula ao seu verdadeiro eu e resignam-se uns aos outros…

‘Carnage’ é um espectacular estudo de personalidade, da forma como as pessoas evoluem e se escondem atrás de máscaras na sociedade, da forma como uma série inesperada de eventos pode revelar a sua verdadeira forma de ser, e da forma como as conversas mais banais podem denegrir muito facilmente, com uma frase mal colocada, uma palavra errada. Ver ‘Carnage’ é ver 4 actores a demonstrarem as suas melhores qualidades. Mas, felizmente, não é só um estudo verbal e de argumento. Os escapes cómicos e as situações inesperadas que se passam dentro do apartamento, à medida que a forma de ser social das personagens se degreda, são suficientes para satisfazer o público que não tenha ‘estofo’ para as convencionais ‘teatralidades’.

Um êxito em todas as vertentes. Só se pode lamentar o filme ter perdido público, prémios e divulgação simplesmente por dizer ‘realizado por Polanski’. Esta expressão raramente desaponta, pelo menos em termos cinematográficos.

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Miguel. Portuense. Nasceu quando era novo e isso só lhe fez bem aos ossos. Agora, com 31 anos, ainda está para as curvas. O primeiro filme que viu no cinema foi A Pequena Sereia, quando tinha 5 anos, o que explica muita coisa. Desde aí, olhou sempre para trás e a história do cinema tornou-se a sua história. Pode ser que um dia consiga fazer disto vida, mas até lá, está aqui para se divertir, e partilhar com o insuspeito leitor aquilo que sente e é, quando vê Cinema.

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