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The Descendants

Ano: 2011

Realizador: Alexander Payne

Actores principais: George Clooney, Shailene Woodley, Amara Miller

Duração: 115 min

Crítica: (Escrita a 23 de Janeiro de 2012)

"‘The Descendants’ é um filme sobre a perda. Há muitos filmes sobre a perda, a morte da mulher/do marido, de um filho, de um amante. ‘The Descendants’ não é mais nem menos que a maior parte destes filmes (a ser, é menos), e isto resume o filme muito simplesmente.

Ontem, sentado na sala de cinema, numa das muitas partes morosas do filme, pus-me a pensar na personagem de Clooney, que recentemente ganhou o Globo de Ouro de melhor actor e é forte candidato ao Oscar (será que a Academia vai ter coragem de votar no francês Jean Dujardin?!). Pensava eu o que estava Clooney a dar a este papel? Clooney estava a falar exactamente da mesma maneira que fala em todos os seus filmes. Clooney estava a ter os trejeitos de cara que tem em todos os seus filmes. Em suma, Clooney estava a ser Clooney. Portanto, Clooney está a ser homenageado pela sua performance ou pelo seu papel? Ou seja, é por chorar por a mulher estar a morrer que dizemos que ele está a ser um bom actor, ou é porque efectivamente está a chorar da maneira que nos convence? Estamos a dar prémios ao papel, à personagem do argumento, ou ao actor? Infelizmente, em muitos casos, e este não é excepção, estamos a dar o prémio ao papel, não ao actor, visto que Clooney está igualzinho a ele próprio, incluindo até ser demasiado ligeiro em cenas em que não o deveria ser. Claro que chora. Claro que a câmara o apanha de frente para podermos ver o seu olhar triste e a lágrima a cair. Mas isso é a câmara e o argumento que ditam, não o actor. ‘The Descendants’ é todo ele construído sobre estas premissas de argumento que a câmara depois efectivamente não traduz.

Um exemplo. No início do filme há uma voz off insuportável de Clooney em que ele explica os seus sentimentos tintim por timtim (a sua mulher teve um acidente de barco, está em coma e está prestes a morrer). São minutos e minutos de voz off (cerca dos 10 primeiros). Mais parecia que Clooney estava a ler passagens do romance em que o filme é baseado. Um realizador europeu dispensaria a voz off e explicaria os sentimentos de Clooney por imagens (o cinema é imagens antes de ser texto). Aqui, forçada e artificialmente, somos sugados para o seu sofrimento. E tirando as cenas no hospital em que a família chora sobre a doente, na realidade pouco parecem sofrer por ela. Clooney mexe-se e fala como um homem despreocupado (à Clooney). As palavras, em si, têm sentimento. Não as imagens nem a forma como as palavras são ditas.

Basicamente Clooney e as suas duas filhas tentam lidar com a perda da mulher/mãe. Por um lado Clooney tem que dar a notícia aos familiares e aos amigos próximos, para que possam ir ao hospital despedir-se antes das máquinas serem desligadas. Por outro, sobre ele está assente a responsabilidade de venda de uns terrenos belíssimos e virgens numa das ilhas do Hawaii. Se os vender, ficará rico, mas a beleza natural perder-se-á. Esta linha de argumento parece existir para encher. Nada se relaciona com a morte da mulher, e tudo gira à volta das convicções de Clooney. E o desfecho, em face do argumento, não é difícil de adivinhar. Este tipo de filmes segue uma linha clara. A iminente morte de um familiar faz com que as pessoas à sua volta reavaliem as suas prioridades. Em ‘The Descendants’ estas prioridades são egoístas, e nada se relacionam com a morta. Mas neste caso, o filme terá razão, pois assim acontece a maior parte das vezes na vida.

Tomemos outro exemplo. O filme perde imenso tempo em dar o desenvolvimento da personagem da filha mais nova. Contudo, quando a filha mais velha regressa do colégio privado o interesse cambia todo para ela e até ao final do filme a filha mais nova diz apenas mais cerca de 5 frases, se tanto. Mais situações forçadas para explicar personagens e encher. As personagens não se explicam. Filmam-se.

A catarse para a redenção final vem sobre a forma de uma odisseia em que Clooney, depois de descobrir que a mulher afinal era infiel, leva as 2 filhas e um amigo da filha mais velha (não se percebe bem porque é que esta personagem entra na história) para outra ilha do Hawaii, à procura do suposto amante da mulher, para o confrontar. A situação é digna de uma comédia (é só ver Clooney a correr pela rua quando descobre – o público partiu-se a rir, eu inclusive). Mas de novo, tudo isto é sobre Clooney. É uma personagem egoísta que procura a catarse para a sua própria redenção. Desde o início assume a morte da mulher e isto pouco parece afectá-lo. Está mais preocupado com o seu próprio futuro e como vai tomar conta das filhas. Claro que quem parte não interessa, e os problemas residem com os que ficam, é certo, mas o filme envia mensagens estranhas e contraditórias, para além de forçar emoções no espectador. ‘Agora esta cena é para rirem’. ‘Agora esta cena é para puxar a lágrima’. ‘Agora façam favor de sentir simpatia por esta personagem que não merece’. ‘Agora ouçam a voz off para perceberem os meus sentimentos muito bem’.

Quando leio as críticas de que este é o filme do ano e é forte candidato aos Óscares dá-me vontade de rir. É um filme para as massas, certo. Não é demasiado intenso que fira susceptibilidades nem seja demasiado complicado de gerir (ideal para todos os públicos), nem é demasiado superficial para que perca a sua qualidade. Mas está num meio termo banal. Filmes sobre a perda como ‘La Stanza do Figlio’ (2001, vencedor da Palma D’Ouro) ou até a obra prima americana ‘Ordinary People’ (1980, vencedor do Óscar de Melhor Filme), atingem notas muito mais profundas e lidam com sentimentos de uma forma muito mais real. São primeiro boas histórias e depois bons filmes. Já ‘The Descendants’ parece talhadinho para todos os públicos, sem se decidir o que quer ser.

O próprio Alexander Payne realizou um filme sobre a perda melhor, ‘About Schmidt‘ (2002) ao mesmo ritmo deste filme, mas com uma personagem muito mais cativante e cujos sentimentos passam para além da tela para nós (provavelmente o talento de Jack Nicholson tem alguma coisa a ver com isso). Em ‘The Descendants’ está tudo na tela e é tudo muito bonito lá. Mas pouco passa para o lado de cá. Sentimos simpatia por Clooney, sentimos simpatia pela filha mais velha. Mas não passa de uma simpatia superficial. Queremos lá saber da morta, queremos lá saber da filha mais nova que deixa de aparecer 15 minutos depois do filme começar.

No final de contas, ‘The Descendants’ tem poucas camadas. É o que aparenta ser, é o que apresenta. É uma história ligeira sobre a perda, engraçada e até comovente nalguns momentos. Mas não é um daqueles filmes que ficam, nem de perto nem de longe. E Clooney vale pelo papel, não pelo actor. Eu destacaria Shailene Woodley, que interpreta a filha mais velha. Eis uma jovem actriz que tem espaço para crescer.

Saí muito desapontado de ‘The Decendants’. Primeiro porque é um filme cuja ideia se esgota aos 50 min e depois arrasta-se até ao final que parece nunca mais chegar. Segundo porque, apesar de não ser nada de muito mau, não era nada como os media andam a anunciar. Marketing? De certeza! Acabei de ler mais uma crítica de um jornal americano. Fala em complexidade emocional. Please, não me façam rir."


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Miguel. Portuense. Nasceu quando era novo e isso só lhe fez bem aos ossos. Agora, com 31 anos, ainda está para as curvas. O primeiro filme que viu no cinema foi A Pequena Sereia, quando tinha 5 anos, o que explica muita coisa. Desde aí, olhou sempre para trás e a história do cinema tornou-se a sua história. Pode ser que um dia consiga fazer disto vida, mas até lá, está aqui para se divertir, e partilhar com o insuspeito leitor aquilo que sente e é, quando vê Cinema.

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