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The Great Gatsby

Ano: 2013

Realizador: Baz Luhrmann

Actores principais: Leonardo DiCaprio, Joel Edgerton, Tobey Maguire

Duração: 142 min

Crítica: Baz Luhrmann. Detesto Baz Luhrmann. Vá lá, ‘detestar’ é uma palavra muito forte. Não aprecio, digamos assim, os filmes deste realizador australiano. Verdade que não vi nem ‘Strictly Balroom’ (1992), o seu primeiro filme, nem ‘Australia’ (2008) o seu último (antes de Gatsby). Mas depois de ter visto ‘Romeo + Juliet’ (1996) e ‘Moulin Rouge’ (2001), os outros dois filmes que completam a filmografia deste senhor, jurei para mim próprio que nunca mais veria um filme dele. Por muito que possa tentar disfarçar, Luhrmann é um realizador comercial. Não se pode confundir o seu estilo frenético de edição, o seu exuberante design de produção, a sua introdução forçada de uma banda sonora moderna e descontextualizada, e a opulência degradada das suas obras, com arte. É, simplesmente comercialismo, uma necessidade de chamar à atenção pelo ‘choque’. Luhrmann está para o cinema como estão aqueles artistas plásticos que pegam em obras conhecidas, ou retratos de pessoas famosas, e depois lhes espetam sanitas em cima, ou baldes de tinta, ou o que quer que seja. Essas obras sozinhas seriam insignificantes. Dependem exclusivamente do facto das pessoas conhecerem as obras originais, e do facto das obras originais terem alguma qualidade, que obviamente passa por osmose para a sua obra final. O resto é tudo ‘choque’ por contraste, é fachada superficial que procura esconder a falta de conteúdo e profundidade.

Infelizmente, lá fui ontem ao cinema. E a mesma opinião que tinha de Luhrmann mantém-se… exactamente. ‘The Great Gatsby’ é exactamente o que eu descrevi no parágrafo anterior, sem tirar nem pôr. Não acrescenta nada ao estilo nem à obra do realizador. Mas em vez de desta vez ele apontar a sua degradação artística e o seu reciclar comercial à obra do Bardo, aponta-o à obra de F. Scott Fritzgerald. Eu nunca li este livro, mas já li, por exemplo, ‘Tender is the Night’, outra grande obra deste escritor, e estou ciente do belo estilo de escrita descritivo que ela possui, e da complexidade e do peso emocional que está incutido nas personagens das suas obras. Profundidade emocional e descrição sentimental através das imagens são duas coisas que Luhrmann desconhece. Tudo isto é posto de parte pelo choque visual daquilo que a câmara artificialmente capta (com a ajuda, desta vez extremamente exagerada, do computador). A história, obviamente, é boa. Não há que fugir do fio condutor do livro, mas o que Luhrmann faz com a história é o que o cinema moderno está a fazer a todas as grandes obras literárias: mastiga-as, decompõe-nas, e despe-as de toda a subtileza – com a diferença de que Luhrmann ainda acrescenta, para além disto, o seu estilo muito característico, que apela a uma geração de espectadores modernos (o chamado estilo MTV), mas que está longe de tornar o filme numa obra que perdure para além da contemporaneidade.

A acção passa-se nos anos 1920, uma década que na imaginação de Luhrmann é muito mais louca do que aquela que na realidade foi, pois é uma loucura associada, mais uma vez, aos padrões actuais. Tudo é desenhado com o rigor da época, mas com a essência actual. Ou seja, a ideia é tornar ‘Great Gatsby’ intemporal, mas tenho dúvidas se é isso realmente o que acontece. Um exemplo. A banda sonora apresenta tudo e mais alguma coisa actual, desde Beyonce, a Lana del Rei, a Alicia Keys a Jay Z, mas tudo em versões ‘smooth jazz’, ou seja, mais próximas da música da época, mas pouco ou nada se ouve realmente da década de 1920. Qual o objectivo disto senão provocar associações contemporâneas no público, chamar à atenção desesperadamente. Há realmente um paralelismo escondido nesta abordagem, constante não só na banda sonora, mas também nas outras vertentes?

Gatsby é, no fundo, uma grande história de amor. É narrada por Tobey Maguire, que interpreta o papel de Nick. Esta narração também não está muito bem conseguida. Já é raro o filme hoje em dia que não seja baseado num livro. Mas na maior parte das vezes são livro pouco descritivos e de fácil transcrição. As adaptações mais recentes de grandes romances pecam por depender de uma forma incrivelmente exagerada na narração voz off. A narração de Maguire neste filme é um desses exageros. Verdade que há, supostamente, uma homenagem à beleza da linguagem (ver cena ‘poética’ onde as próprias palavras narradas aparecem pintadas no céu), mas a outra verdade é que isto esconde outro facto muito simples. A dependência da narração existe porque não há mestria suficiente do realizador para explicar as coisas ‘através da imagem’. Luhrmann usa a imagem, e os artifícios da imagem em demasia. Portanto, se não consegue expressar as emoções das personagens através dessa imagem, se precisa da voz off constantemente (mesmo quando já tudo está percebido) então 1) as ‘imagens’ de Luhrmann provam mais uma vez ser só fachada e 2) de novo há a necessidade de fazer a papinha toda para o público, uma necessidade quase insultuosa para o espectador mais atento.

Gatsby, dizia, é uma história de amor. Gatsby (Leonardo diCaprio, um actor mais que adequado para o papel) é um milionário misterioso que dá as maiores festas de Nova Iorque. Ninguém sabe realmente quem ele é nem como fez a sua fortuna. Um jovem pobre (Tobey Maguire) aspirante a escritor mas que trabalha na bolsa de NY, vê-se, quase por acaso, envolto no mundo deste playboy. O primo de Nick é outro homem da alta sociedade, Tom (interpretado pelo pujante Joel Edgerton) que vive exactamente do outro lado da baía de Gatsby. A mulher deste é a delicada Daisy (Carey Mulligan) a mulher que é o centro do filme. O filme abre, tal como ‘Moulin Rouge’ a mostrar a decadência da sociedade, as festas, a insanidade dos ricos e opulentos. Felizmente, não tem tantos cortes nem uma montagem tão frenética como ‘Moulin Rouge’, por isso não enjoei nos primeiros 10 minutos, como estava à espera. Depois a história de Gatsby desenrola-se. Descobre-se que já conhecia Daisy antes e parece ser o amor desta que procura desesperadamente, no meio de toda a sua riqueza. Usa Nick, a pobre vítima das circunstâncias (mas que não é averso a se tornar decadente), para conseguir chegar perto de Daisy e reconquistar o seu amor. Claro que não é tudo fácil, não só pelos segredos que Gatsby esconde do seu passado, como pela instabilidade emocional de Daisy, e pela desconfiança e conspirações do seu marido (que tem também muitas escapadelas românticas com amantes). Tudo conflui, como não podia deixar de ser, para um twist e um trágico final…

Para além do que já mencionei, há outras coisas que não batem certo em ‘The Great Gatsby’. Mulligan é uma péssima escolha para Daisy. Este é uma actriz delicada e tímida, sem grande beleza, que resulta brilhantemente em filmes como ‘Drive’, mas que não tem estofo para ser uma ‘femme fatale’. Tem a complexidade emocional de Daisy, mas ninguém acredita na descrição narrada por Maguire aquando da sua primeira aparição de que ela é uma deusa e que os homens ficam doidos por ela num olhar. Depois há a história da voz off, que destrói qualquer capacidade do filme ser inteligente. Depois há o estilo de Luhrmann, que está continuamente a atirar areia para os olhos, sempre luz e cor e cortes e música, esquecendo-se da intimidade que algumas cenas devem ter para poder funcionar. Quando pára para estas cenas, o filme já vai com tanto balanço que as passa a correr. Depois há a adaptação do livro. Vi o filme com alguém que já o leu e o consenso é que tudo é exagerado, tudo é mastigado para que o público não tenha que pensar nas entre-linhas. Este exagero é clássico Luhrmann. E por causa disto, o twist e a revelação emocional que é o cerne do filme parece patética, porque está envolta em superficialidade. Não choca, não emociona. Passa e prontos. E por isso mesmo outra coisa que acho absolutamente não credível no filme é a queda final de Maguire (não estou a revelar nada pois o filme começa com ele num hospital psiquiátrico). Não acho credível que o final da história tenha conseguido afectá-lo tanto ao ponto de quase o levar à loucura. Para me convencer o filme teria que ter explorado profundidades emocionais das quais nem chegou perto. A única coisa que me agradou, realmente, no filme, foi a banda sonora instrumental de Craig Armstrong (como sempre), que infelizmente tem muito poucas oportunidades para aparecer.

No final de contas, a versão de 2013 de ‘The Great Gatsby’ é um produto de artificialidade. O próprio Gatsby o é, pelo que alguns poderão advogar que esta é a grande metáfora do filme. Mas a artificialidade de Gatsby (sem revelar o final) tinha um propósito bem claro, estava focada num único objectivo. O mesmo não se passa com a artificialidade do filme. É assim porque sim, porque houve a decisão de o fazer assim, para chocar, para apelar às massas, para retirar a subtileza da obra original e tentar transformar este romance em mais um grandioso sucesso de bilheteira. Porquê tanta música, tanta cor, tantos efeitos especiais, se o cerne da obra é emocional? Para chegar ao âmago dos sentimentos só é preciso dois actores e uma câmara. Para Luhrmann é preciso tudo o resto. E aqui está porque não consigo gostar deste realizador. Ele produz espectáculo, não cinema.

‘The Great Gatsby’ não me desapontou. Foi exactamente tudo o que esperei que fosse. E por isso não gostei dele. É um filme de Luhrmann. E isso diz tudo. Não é para todos. Para mim não é de certeza.


2 comentários:

  1. Caro Mike, que bela surpresa conhecer o seu blog! Nem sei como cheguei aqui, acho que foi atrás de alguma foto, mas esqueci de tudo ao ler suas críticas. Você escreveu o que senti ao ver "O Cavaleiro Solitário" e muito do que observei em "Great Gatsby". Mas discordo de sua avaliação da escolha de Carey Mulligan. Acho que ela não tinha que ser uma 'femme fatale". Gatsby apaixonou-se por aquela jovem frágil, educada, de boa família, que para ele simbolizava a vida dos bem-nascidos, que ele queria ter sido. Daisy foi fatal para ele! Acho que Nick também era atraído por ela, por seu olhar entre ingênuo e displicente, quase infantil, que pode ser sedutor para alguns homens. Era a visão dos dois sobre Daisy, nada mais. Vou incluir "Eu Sou Cinema" entre meus favoritos para tornar a visitá-lo sempre. Um abraço, Stella

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  2. Cara Stella, muito me agradou ler os seus comentários e fico-lhe muito agradecido pela sua simpatia. Não posso deixar de concordar com a sua visão sobre a personagem de Daisy, que provavelmente deve fluir mais do romance e não daquilo que o filme revela. Eu não li o livro portanto sinto que estou um bocado em pé de desigualdade com o filme. Como está escrito algures neste blog, estas críticas reflectem só e apenas uma opinião pessoal. O eu gostar ou não gostar de um filme vale o que vale, e não implica que o filme seja bom ou mau realmente. Reflecte apenas aquilo que eu sinto, ao vê-lo, e se outra pessoa sentir uma coisa diferente, não implica que esteja mais certa ou errada do que eu. É assim que vejo as coisas. Mas claro, o facto de ser dono e senhor destas palavras faz com que "impinja" as minhas opiniões. Se elas são compartilhadas, tanto melhor, significa que estamos a chegar a algum lado e podemos ter (alguma) razão. Escrever é um acto solitário, mas depois de escrita e publicada a crítica se consegue atingir alguém que a acha útil e para além disso se identifica com o que partilhamos é uma sensação muito boa. Bons filmes e mais uma vez obrigado. Abraço, Mike

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Miguel. Portuense. Nasceu quando era novo e isso só lhe fez bem aos ossos. Agora, com 31 anos, ainda está para as curvas. O primeiro filme que viu no cinema foi A Pequena Sereia, quando tinha 5 anos, o que explica muita coisa. Desde aí, olhou sempre para trás e a história do cinema tornou-se a sua história. Pode ser que um dia consiga fazer disto vida, mas até lá, está aqui para se divertir, e partilhar com o insuspeito leitor aquilo que sente e é, quando vê Cinema.

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