Marty

Ano: 1955

Realizador: Delbert Mann

Actores Principais: Ernest Borgnine, Esther Minciotti,  Betsy Blair

Duração: 90 min

Crítica: Não sei dizer quantas vezes na minha vida já vi ‘Marty’, o filme que ganhou quer o Óscar de Melhor Filme quer a Palma D’Ouro em 1955. Duas, no mínimo, provavelmente não mais que três. Mas em cada uma destas visualizações nunca consegui perceber onde está o fascínio ou a qualidade deste filme simples, de baixo orçamento, com uma história pseudo-humana muito fina e superficial, e com muito pouco interesse cinematográfico.

É verdade que os restantes nomeados para o Óscar nesse ano não eram nada por aí além, o que é ainda mais estranho. 1955 possui magníficas obras. Orson Wells fez ‘Confidential Report’, Laughton fez ‘Night of the Hunter’, Hitchcock fez ‘The Trouble with Harry’ e Sturges fez ‘Bad Day at Black Rock’. Ray iniciou a sua trilogia do Apu com 'Pather Panchali’, Ophulus filmou ‘Lola Montes’, Clouzut filmou ‘Les Diaboliques’, os estúdios Ealing fizeram ‘Ladykillers’, e há ainda ‘Summertime’, ‘The Man from Laramie’, ‘Desperate Hours’, ‘The Country Girl’ (que valeu o Óscar a Grace Kelly), ‘East of Eden’, o musical ‘Guys and Dolls’, a brilhante comédia ‘Court Jester’ e até o desenho animado da Disney ‘Lady and the Tramp’. Praticamente nenhum destes filmes, hoje em lugares de referência na história do cinema, foi nomeado para o principal galardão da Academia ou de Cannes, ao contrário de ‘Marty’ (hoje praticamente esquecido), que ainda por cima venceu ambos os prémios. Isto para mim é um mistério.

Mas é um mistério que talvez seja fácil de explicar. ‘Marty’ poderá ser (para mim) um dos piores filmes alguma vez a ganhar o Óscar de Melhor Filme, mas é um filme que se enquadrou num contexto específico. Paralelismos podem ser encontrados com a vitória igualmente cinematograficamente controversa de ‘Slumdog Millionaire’. Slumdog surgiu numa altura em que o público pedia material de escapismo ‘para elevar o espírito’, quando o mundo estava à beira de mergulhar na crise financeira. ‘Marty’ apareceu também numa época de mudanças sociais, e foi um filme que decidiu não se focar (ao contrário da maior parte dos filmes ‘sociais’ americanos dessa altura) na delinquência e na rebeldia juvenil. Ambos os filmes foram modas, incentivadas por campanhas de publicidade incisivas (supostamente a promoção de ‘Marty’ custou mais que o próprio filme). Em outras circunstâncias sociais, estou seguro que quer ‘Marty’, quer Slumdog seriam pouco notados.

Baseado numa peça de teatro e num telefilme feitos poucos anos antes, ‘Marty’, com apenas 85 minutos, é o filme mais curto alguma vez a ganhar o principal prémio da Academia. A sua história conta-se em meia dúzia de linhas. Ernest Borgnine interpreta (na perfeição, diga-se) um homem solteiro de 34 anos, tímido e desengonçado, que de dia trabalha num talho, e à noite divide o seu tempo entre ficar em casa com a sua mãe ou ir para um bar com os seus amigos, também eles pobres inadaptados. Mas enquanto todos parecem ter namoradas e inevitavelmente casar e assentar, Marty permanece solteiro e só. Somos confrontados com a pressão que constantemente sofre da mãe para ‘arranjar uma rapariga’ e com o seu desagrado em imitar os seus amigos que nos bares procuram constantemente uma fácil aventura de uma noite.

Um dia tudo muda para Marty. Numa saída à noite conhece a sua alma gémea, o seu eu feminino, uma tímida professora interpretada por Betsy Blair. Claramente foram feitos um para o outro. Ambos são almas simples e delicadas, que em toda a sua vida sempre foram postas de lado pelos outros. Divertem-se como nunca se divertiram, e esta única noite inocente que partilham em conjunto ocupa a maior parte do filme. No final da noite, Marty promete ligar-lhe no dia seguinte, mas mal a deixa, temos um conjunto de cenas para nos mostrar que a sua mãe e os seus amigos não gostam dela, por diferentes razões. Pressionado para a descartar, Marty adia o prometido telefonema durante 10 minutos de filme até que, no final do dia seguinte e no final do filme, decide fazê-lo. Quando entra na cabine, o filme acaba. Tirando uma pequena história secundária respeitante à tia de Marty o filme não tem absolutamente mais nada.

Este é um filme que só muito dificilmente apelará a alguém que não seja tímido, ou a alguém que nunca tenha tido dificuldade em começar uma relação ou encontrar alguém, ou que nunca tenha sabido o que é estar verdadeiramente sozinho. É também um filme que dificilmente apelará a alguém com menos de 30 anos, ou a alguém com idade superior mas que tenha tido já um ou uma série de relacionamentos. Este é um filme para os espíritos solitários, um filme de esperança moribunda, um filme cuja mensagem final é simplesmente que cada pessoa poderá encontrar a sua alma gémea independentemente de tudo e de todos. E isto é dado da forma mais directa e insossa possível, sem qualquer drama ou floreados cinematográficos.

Talvez seja esta a razão para o seu sucesso crítico. Esta será uma tentativa de atingir um género de cinema social, ‘cinema verdadeiro’, fiel à vida, despido da essência de Hollywood, tal como aquele que surgiu mais ou menos nesta década na Europa. Mesmo em Hollywood, há exemplos de filmes deste género que resultaram. Não, na minha opinião, ‘Marty’. Fazer um filme de uma certa maneira, imitando um género, não implica necessariamente que o filme passe imediatamente a pertencer a esse género. Neste filme uma mãe dedicada passa mais de metade do tempo a querer que o filho arranje uma miúda e se case. Mas quando ele arranja, ela imediatamente muda de opinião, pois tem medo de ficar só (algo que nos é dado pela introdução da personagem da tia, que também serve para consumir minutos necessários para chegar à hora e meia). Neste filme o ‘dilema’ da personagem principal resolve-se em menos de meio-dia. Neste filme o interesse romântico (a professora) é desprovida de qualquer personalidade. A única vez que vemos algum vislumbre das suas emoções é durante a cena de 15 segundos em que chora porque Marty ainda não lhe ligou.

Portanto, ‘Marty’ não é suficiente profundo nem trabalhado para ser cinema poderoso ‘verdadeiro’. Um filme simples pode ser poderoso, mas não é este o caso. Marty conhece uma rapariga uma noite. No dia seguinte acorda, vai à missa, passa a tarde toda a ouvir os amigos e a mãe a dizer que a rapariga não é boa para ele e que deve esquecê-la, mas 2 horas depois (10 minutos de filme) muda de ideias e liga-lhe. Que maravilha! E o filme nem sequer nos dá o telefonema, acaba quando ele está a marcar o número portanto obriga-nos a acreditar que tudo ficará bem. E se a rapariga estiver tão triste por já ter passado um dia inteiro e se recusar a vê-lo outra vez? E se eles forem num segundo encontro e a coisa não resultar? E se…. milhares de possibilidades… Para um filme que se auto-proclama como ‘verdadeiro’ e ‘social’, a verdade é que acaba da forma mais Hollywoodesca possível! Quem é que este filme vai inspirar? Os solitários? Os patéticos infelizes? Talvez nem mesmo esses.

Por todas estas razões não creio que ‘Marty’ funcione. Talvez o problema seja meu. Talvez não me consiga identificar com esta personagem e não a ache credível. Mas a verdade é que a história é muito fina, especialmente no final, e tirando a personagem principal as outras estão muito pouco trabalhadas. E a condensação da acção num único dia também não assiste à credibilidade do arco emocional de Marty. O filme consegue, é certo, ser simples e puro. Mas não tem a consistência suficiente para ser um bom filme, nem um filme credível. Dos seus 4 Óscares (Filme, Realizador, Actor e Argumento), só posso concordar com o de actor. Acho incompreensível com é que algo com esta história que facilmente se escreve em 2 horas pôde ganhar Melhor Argumento. Felizmente, o argumentista, o grande Paddy Chayefsky, acabaria por ganhar mais dois Óscares de argumento, por ‘Hospital’ (1971) e ‘Network’ (1976), ambos inteiramente merecidos. Já o realizador, Delber Mann, esteve sempre mais no teatro e na televisão, e os seus feitos cinematográficos são poucos. Destacaria, talvez, 'Separate Tables' de 1958, filme que valeu o Óscar a David Niven.

Ah, e depois não nos podemos esquecer daqueles sotaques italianos horríveis, pessimamente feitos, das actrizes que fazem de mãe e de tia de Marty…

‘Marty’ foi uma moda social. Foi um ‘Slumdog Millionaire’, um ‘King’s Speech’, um ‘The Apartment’. Foi um filme que disse algo a uma geração de um contexto muito específico, e que depois se perdeu. ‘Marty’ não é nem um bom filme, nem um filme que consiga resistir ao teste do tempo. É provavelmente o filme mais fácil de esquecer, de todos os que ganharam o Óscar de Melhor Filme.



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Miguel. Portuense. Nasceu quando era novo e isso só lhe fez bem aos ossos. Agora, com 31 anos, ainda está para as curvas. O primeiro filme que viu no cinema foi A Pequena Sereia, quando tinha 5 anos, o que explica muita coisa. Desde aí, olhou sempre para trás e a história do cinema tornou-se a sua história. Pode ser que um dia consiga fazer disto vida, mas até lá, está aqui para se divertir, e partilhar com o insuspeito leitor aquilo que sente e é, quando vê Cinema.

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