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Linha de Passe

Ano: 2008

Realizador:  Walter Salles, Daniela Thomas

Actores principais:  Sandra Corveloni, João Baldasserini, Vinícius de Oliveira

Duração: 113 min

Crítica: Na década de 2000 o cinema sul-americano assistiu a um renascimento, com poderosas vagas cinematográficas a surgirem de países como o México (através de realizadores como Inarritu, Cuaron, Fukunaga) ou o Brasil. Aliás, sucessos internacionais como ‘Central do Brasil’ (1998), ‘Cidade de Deus’ (2002) ou ‘Tropa de Elite’ (2007) voltaram a pôr o cinema brasileiro no mapa, num lugar de destaque que já não ocupava desde os anos 1960, a época de ouro de Glauber Rocha.

‘Linha de Passe’ é precisamente do realizador de ‘Central do Brasil’, Walter Salles (com a co-realização de Daniela Thomas). De um filme a outro, Salles também alcançou sucesso com ‘Diários de Che Guevara’ (2004), contribuiu com curtas para ‘Paris Je T’aime’ (2006) e ‘Chacun son cinema’ (2007) e teve uma incursão por Hollywood em ‘Dark Water’ (2005). Há bem pouco tempo o seu novo filme ‘On the Road’ (2012) esteve nos cinemas. Ainda não o vi, mas a verdade é que foi bem mais falado por ter a actriz do ‘Twilight’ Kirsten Stewart no elenco do que propriamente pela sua qualidade.

Este currículo demonstra que Salles não é apenas mais um realizador brasileiro, mas a par de Fernando Meireles um dos grandes nomes a ter em conta. Mesmo assim, também a par de Meireles, está a seguir um percurso algo previsível. Após um primeiro grande sucesso no Brasil, volta de quando em quando a essa fórmula, nunca de uma forma tão bem conseguida, e pelo meio ganha reputação em bem trabalhadas co-produções internacionais (mas que muitas vezes vivem dessa mesma reputação) e tem uma estadia de pouca duração em Hollywood, com filmes pouco relembrados.

‘Linha de Passe’ insere-se na categoria de 'regresso às origens', depois de viagens pelo cinema europeu e o de Hollywood. É um filme muito bem conseguido, consistente, de boa qualidade mas que nunca chega a surpreender, porque está preso a uma fórmula que, apesar de funcionar (e bem), já foi vista muitas vezes e é território seguro para o realizador. Uma vantagem deste filme, e que lhe dá ainda mais qualidade, é que Salles e Thomas não se vendem aos festivais, ou seja, facilmente o enfoque deste filme poderia pender para a situação social das personagens e de São Paulo, temas esses que fazem sempre a delícia dos críticos, independentemente da qualidade do filme. Neste caso os co-realizadores têm sempre as personagens (e não o seu ambiente) em primeiro lugar. As personagens existem num determinado ambiente, e são condicionadas por ele, claro, mas não são estereotipadas para demonstrar as características desse ambiente ou para pintar um retrato das classes mais pobres do Brasil, como se vê em muitos filmes ‘sociais’. Este enfoque nas personagens sabe-me sempre bem.

O filme segue 5 pessoas, uma mãe solteira (de novo grávida) e os seus 4 filhos rapazes. Cada uma destas personagens tem um sonho e uma paixão, e no meio da sua condição (num bairro pobre de São Paulo) tentam agarrar a vida e fazê-la sua. A mãe, empregada da limpeza de uma senhora rica, tem uma paixão louca pelo Corinthians, mas o seu sonho é conseguir dar o melhor que pode aos seus filhos, que são de pais diferentes. Quando assume que a gravidez poderá pôr em risco o seu emprego e o seu sustento, começa a desesperar. Dário, o filho mais velho, sonha em ser jogador de futebol. Embora seja bom, está sempre a falhar oportunidades com olheiros, e com 18 anos, começa a perder a esperança. Surge uma, mas tem que arranjar uma quantia de dinheiro que não tem. Reginaldo, o mais novo, vive obcecado com encontrar o seu pai, mas a única informação que sabe é que é condutor de autocarros. Então não vai à escola para passar os dias de autocarro em autocarro. Aos poucos, apaixona-se pelos autocarros em si, e sonha em ocupar o assento do condutor, ou seja, o lugar do pai que nunca teve. Dinho tem um emprego precário numa bomba de gasolina, mas é na religião que encontra o seu conforto e nela procura a solução para todos os seus problemas, embora na realidade também inveje as namoradas do seu irmão Denis e queira em parte ser como ele. Este, que usa a sua mota para fazer trabalhos ocasionais como mensageiro, quer dinheiro mas não quer trabalhar, para além de ter as tais várias namoradas e inclusivé um filho de uma delas.

Todas estas personagens vão ter um arco emocional ao longo do filme. Com os seus sonhos à beira de se desfazer, todos eles vão optar, em vários níveis, pela solução mais fácil que o seu ambiente pode proporcionar: o crime. Também em vários níveis, todas as personagens vão acabar por ter, à medida que o filme se aproxima do fim, uma espécie de redenção.

Contudo, apesar de ter uma consistente criação de personagens, e um óptimo ritmo para um filme que não tem propriamente uma linha de história para além da evolução das suas personagens, esta é uma película que acaba por ser desequilibrada. Gerir 5 personagens é difícil e apesar de haver cortes constantes entre as 5, o enfoque acaba por ser tendencioso. Se inicialmente começamos com a mãe, o filme acaba por se esquecer dela a maior parte do tempo. O enfoque em Dário, o jogador de futebol, é também muito maior, mas é simples de perceber porquê: porque as imagens dos seus treinos futebolísticos acabam por ser cinematograficamente mais tentadoras. A apontar um defeito a ‘Linha de Passe’ aponto precisamente esse, o desequilíbrio no tratamento das 5 personagens que tem. Mas claro, seria quase virtualmente impossível dar a mesma atenção emocional a todas.

Por outro lado, há linhas da história que não têm muita consequência, e no fim pus-me a pensar, ‘então o que aconteceu a…’. Mesmo assim, mais uma vez, se ponderar mais um pouco, chego à conclusão que isso não é muito importante. O filme não quer mostrar a vida de 5 pessoas, quer mostrar pedaços de vida de 5 pessoas da mesma família que querem algo da vida que o seu contexto não lhes pode oferecer, e portanto têm que lutar para o conseguir. Mas é mais uma luta emocional que propriamente um agir para atingir os seus fins (algo que cinematograficamente é mais difícil de transmitir, mas que o filme acaba por fazer bem). E neste sentido, cada personagem acaba por se manifestar de maneira diferente. Denis, por exemplo, vai ao extremo do crime violento, enquanto que os 'crimes' dos outros são de menor grau.

Os co-realizadores têm um olhar pouco crítico sobre o sistema. A oportunidade de seguir por maus caminhos existe, é certo, em todo lado, mas também a da redenção. E será esta réstia de esperança que o filme acaba por tentar oferecer.

No final, ‘Linha de Passe’ é mais um bom produto a sair do cinema brasileiro recente, que não depende na ultra-violência ou do enfoque nítido nas degradantes condições sociais das favelas brasileiras (como Tropa de Elite e Cidade de Deus), mas mais das personagens (que podiam estar em qualquer ambiente, mas que por acaso estão neste), que apenas pretendem encontrar a paz interior vivendo a vida dos seus sonhos, ou pelo menos dos seus sonhos mais imediatos. O filme tem qualidade, vê-se muito bem e é bom, é certo, mas não é assim tão bom ao ponto de merecer os mais altos prémios cinematográficos a nível mundial. Mais uma vez, entra na equação o contexto em que foi feito e os temas que vai roçando. O maior prémio que recebeu foi o de Melhor Actriz no festival de Cannes, o que mais uma vez parece muito exagerado. O prémio é dado à ideia da personagem (a mãe solteira de 4 filhos com mais um a caminho, que luta para ganhar dinheiro para sobreviver) do que na realidade à performance da actriz, que apesar de consistente não tem nenhum momento de actuação transcendental. E aliás, como disse, a partir de certo ponto a mãe acaba por ser uma personagem secundária, com poucas cenas para brilhar. O mesmo filme e a mesma performance na américa não davam direito a nada. Sei que já discuti isto muitas vezes, mas reitero que para mim o contexto não faz bons filmes, nem a personagem como está escrita no argumento faz automaticamente boas performances.

Felizmente, ‘Linha de Passe’ tem muitas outras valências. É um filme que nunca choca e raramente emociona. Mas é o tipo de filme sobre a esperança de miúdos pobres num contexto sem a mínima oportunidade que está a anos-luz de algo tipo ‘Slumdog Milionaire’ (que relembre-se ganhou o Óscar de Melhor Filme!). Este pode não ser ‘bonitinho’ nem ‘conto de fadas’, mas é real, honesto, está bem captado e não faz juízos de valor. Mesmo assim também não é pungente. Está num meio termo. É o mais próximo que pode haver de um filme para a família sobre esta temática sem perder, contudo, a dureza da realidade. E as suas principais valências é que apresenta personagens credíveis e conduz-nos habilmente, mas com algum desequilíbrio (formal, nunca emocional), pelas suas histórias.

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Miguel. Portuense. Nasceu quando era novo e isso só lhe fez bem aos ossos. Agora, com 31 anos, ainda está para as curvas. O primeiro filme que viu no cinema foi A Pequena Sereia, quando tinha 5 anos, o que explica muita coisa. Desde aí, olhou sempre para trás e a história do cinema tornou-se a sua história. Pode ser que um dia consiga fazer disto vida, mas até lá, está aqui para se divertir, e partilhar com o insuspeito leitor aquilo que sente e é, quando vê Cinema.

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