The Artist

Ano: 2011

Realizador: Michel Hazanavicius

Actores principais: Jean Dujardin, Bérénice Bejo, John Goodman

Duração: 100 min

Crítica: Que eu saiba só se lançaram 3 grandes longas-metragens ao estilo do cinema mudo desde o advento do som em 1929. Em 1931 Chaplin fez ‘City Lights’, um filme condenado à partida (por ser mudo na época de explosão do sonoro) mas que provou ser um grande filme e um estrondoso sucesso de bilheteira. Depois Mel Brooks fez ‘Silent Movie’ em 1976, uma comédia de homenagem ao cinema, mas que contudo é um dos trabalhos menores deste excelente cómico. Finalmente, 2011 viu aparecer, com  um grande sucesso crítico e comercial, ‘The Artist’ pelas mãos do realizador Michel Hazanavicius.

É engraçado notar que cada um destes filmes foi feito por cómicos. Só um cómico é que, nos tempos modernos, tem a capacidade de pensar ao estilo dos filmes mudos, e tem a coragem de sequer ponderar que poderá fazer um deles. Só um cómico, nesta época de 3D e CGI e full HD é que pode exibir a delicadeza necessária para um projecto ambicioso como este. Cómicos raramente são levados a sério, e quando fazem grandes obras de arte são sempre olhados de soslaio. Mas Jerry Lewis e Chaplin e Jim Carrey e Robin Williams e tantos outros provaram ao longo dos tempos que o olhar dos cómicos sobre a vida pode ser muito mais pungente, muito mais intenso, e não precisa de nenhum artifício senão a imagem para o demonstrar.

‘The Artist’ é a preto e branco, é no rácio 1:33, é mudo, tem intertítulos, e é acompanhado por música não directamente relacionada com a acção, e que apenas proporciona uma atmosfera (como se estivesse a ser tocada por uma orquestra não relacionada com a criação do filme, como se fazia nas salas de espectáculo dos anos 1920, já que os filmes mudos eram enviados para as salas sem qualquer som). Assim é mais ousado que ‘City Lights’ e mais ousado que ‘Silent Movie’. A questão é se esta ousadia é suficiente para justificar a qualidade do filme. Ou seja, o filme é feito e lançado. É mudo, é a preto e branco, e ganha todos os prémios existentes. Ganha-os só porque alguém teve a ousadia de fazer um filme mudo, ganha-os apenas pela maneira como foi concebido, a fachada, ou ganha-os porque realmente o filme, o conteúdo, o merece? A resposta é sim, merece. E ainda bem.

Em 2006 tive a felicidade de conhecer o trabalho de Michel Hazanavicius quando ele fez ‘OSS 117: Le Caire, nid d'espions’ e em 2009 chegou a sequela ‘OSS 117: Rio ne répond plus’. Estas comédias de espiões são realmente engraçadas (especialmente a primeira) e a sua mestria reside na incrível performance cómica de Jean Dujardin. Na altura escrevi  que ‘Dujardin é um autêntico génio cómico, e as expressões da sua face são impagáveis’ e que ‘vou continuar a ver filmes do OSS 117 desde que Jean Dujardin continue a actuar neles’. E eis que o projecto seguinte do realizador e do actor não é uma comédia, mas um ousado, e totalmente inesperado, filme mudo! Poderia tal fórmula resultar? Sim, porque ambos, realizador e actor, não eram, até então, grandes nomes conceituados, mas artistas (verdadeiramente!), livres do sistema de estúdio americano e portanto com a irreverência e a liberdade necessária para serem criativos. E porque ambos percebem (e muito) de comédia, sabem exactamente que tom, que equilíbrio e que expressividade visual dar a este muito específico produto final.

‘The Artist’ segue uma história que na realidade não é nova. É uma lição de história para quem nunca viu um filme mudo e não faz ideia do que foi a passagem para o sonoro em 1929. Relembra ‘Singing in the Rain’ (1952), por exemplo. Dujardin é o maior actor de Hollywood (então chamada Hollywoodland, algo que o filme não se esquece de mencionar) uma espécie de Douglas Fairbanks (aliás vêem-se cenas de ‘The Mark of Zorro’ de 1920, em que Dujardin substitui Fairbanks nos close ups). No alto da fama, descobre um talento, Bérénice Bejo, que se vê desde cedo que secretamente o ama. Com o advento do sonoro, a carreira de Dujardin cai a pique, enquanto a de Bejo sobe até ao estrelato. Depois de muito desespero, acarinhado pelo amor de Bejo, há uma redenção final.

A história, como disse, não é nova, e na primeira metade do filme tive sentimentos contraditórios. O filme, tecnicamente, estava a ser excelente, a fotografia, o design de produção, o rol de actores secundários com excelentes expressividades (incluindo John Goodman como o realizador, James Cromwell, como o motorista, e até o cãozinho Uggie). Aliás, o filme parecia encaixar como uma luva na década de 1920, mas se tivesse sido, realmente, lançado nessa década, diluir-se-ia apenas como mais um. Um dos bons note-se, mas apenas mais um desses. O filme parecia, na primeira hora, mais uma exibição, para o público de agora, daquilo que o cinema era na altura  (a maior parte das pessoas que eu conheço nunca viu um filme mudo), do que propriamente uma obra com capacidade de se suster por si própria. Estava a ser bom, é certo, mas não excelente.

Mas então o filme desdisse-me. Adoro quando os filmes me fazem isso. Um filme deve funcionar como um todo. Às vezes só a cena final dá significado a tudo o resto. Às vezes apenas uma frase. Em ‘The Artist’, a segunda metade do filme dá sentido ao todo. Quando finalmente a ‘homenagem ao cinema’ foi ultrapassada, então o filme pode finalmente focar-se na personagem de Dujardin, e aí sim, aí subiu a patamares excelentes. Não só (mas também) por ser mudo, não só (mas também) por Dujardin ter uma expressividade facial incrível, o seu drama pessoal é focado de uma forma universal. E como não há nada que distraia a atenção do público, a câmara em 4:3 não larga a face de Dujardin, e a fotografia a preto e branco faz o resto. O único senão foi ter-se utilizado a música de ‘Vertigo’ para a cena final, de resto foi tudo quase perfeito, ou pelo menos Hollywodescamente perfeito. Alias esta escolha de música é incompreensível, já que o score de Ludovic Bource (vencedor do Óscar) para o resto do filme é realmente bom.

E no fim, já não importa se ‘The Artist’ é mudo ou a preto e branco. Importa apenas o drama da personagem, que é universal, como o cinema. E se esse drama é dado de uma forma pura e verdadeira, com a magia que associamos a Chaplin, por exemplo, então ainda melhor.

Em 1931 Chaplin provou que, numa época em que já ninguém queria ver filmes mudos, e em que muitas das estrelas do mudo se tinham afundado, um filme mudo de excelente qualidade ainda podia atrair público e tornar-se uma obra prima. ‘The Artist’, 80 anos depois (80! Incrível!), prova exactamente o mesmo. Não interessa como o filme é apresentado. Interessa apenas o conteúdo. Claro que este marketing todo relacionado com ‘The Artist’ advém da forma como foi concebido, e o Óscar de Melhor Filme parece um bocado exagerado, mas que o filme é bom e se sustem sozinho não haja dúvidas.

Cannes fez bem em dar a Palma D'Ouro a ‘Tree of Life’ nesse ano. É a celebração do cinema como forma de arte. Há outros filmes que são obras primas não como formas de arte, mas como formas de entretenimento e espectáculo. Portanto, tendo em conta a competição dos 'filmes de massas' americanos desse ano, 'The Artist' até acaba por não ser um injusto vencedor do Óscar, pois é uma obra prima na forma de celebração do próprio cinema e da sua maior qualidade; a de contar histórias. E era isso que o cinema mudo tinha de melhor. Contava histórias universais. Não havia dobragens, nem traduções. As imagens eram tudo. Em ‘The Artist’ as imagens são tudo, captadas pela câmara sem qualquer tipo de adulteração. E não há nada que consiga bater isso. Chaplin estaria orgulhos de ‘The Artist’.

E Dujardin é, sem dúvida, um actor do caneco! Só se pode explicar o facto de (ainda) não ter dado o salto para as grandes produções pelo seu péssimo domínio da língua inglesa. (Ver final de 'The Artist' e a única frase proferida por Dujardin: 'With pleasure', ou como ele diz: 'wizzz pleazoure'!)

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Miguel. Portuense. Nasceu quando era novo e isso só lhe fez bem aos ossos. Agora, com 31 anos, ainda está para as curvas. O primeiro filme que viu no cinema foi A Pequena Sereia, quando tinha 5 anos, o que explica muita coisa. Desde aí, olhou sempre para trás e a história do cinema tornou-se a sua história. Pode ser que um dia consiga fazer disto vida, mas até lá, está aqui para se divertir, e partilhar com o insuspeito leitor aquilo que sente e é, quando vê Cinema.

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