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Mistérios de Lisboa

Ano: 2010

Realizador: Raoul Ruiz

Actores principais: Adriano Luz, Maria João Bastos, Ricardo Pereira

Duração: 272 min / 360 min (6 episódios de 60 min)

Crítica: Para criticar um filme como ‘Mistérios de Lisboa’, o épico ‘português’ do recentemente falecido realizador chileno Raoul Ruiz, um jovem crítico português tem que ser honesto. Extremamente honesto. A razão é simples. Este é o tipo de filmes que devido à forma como foi concebido (independentemente de qualquer conteúdo), e devido à sua premissa, isolada e livre de qualquer outra compreensão, é rapidamente considerado uma obra-prima, suprema e imperdível, por todos aqueles que só prestaram atenção a esta fachada e não olharam duas vezes para o conteúdo. Exemplos deste género de filmes há muitos. Se o filme tiver uma problemática social relevante (ser sobre toxicodependentes, pedófilos, idosos numa aldeia isolada com 10 pessoas) muitas vezes ganha prémios em festivais, unicamente devido a esta sua premissa argumental, muito embora o filme, cinematograficamente falando, possa deixar muito a desejar.

Ora bem, ‘Mistérios de Lisboa’ não retrata uma problemática socialmente relevante, mas encaixa, para mim, na mesma tipologia de filme, pois entre o pacote conceptual com que foi mediatizado e a sua verdadeira natureza está uma longa, mas mesmo uma longa distância que, infelizmente, parece não ter sido apreendida pelos mais importantes nomes da crítica portuguesa. O motivo para isto é também facilmente descoberto. ‘Mistérios de Lisboa’ é uma sumptuosa versão de uma obra de um grande escritor clássico português, Camilo Castelo Branco, é realizada por um conceituado realizador estrangeiro, Raol Ruiz, e tem um leque de actores internacional.

O facto de Raul Ruiz sequer saber quem é Camilo Castelo Branco, de se dignar a fazer um filme sobre uma das suas obras, em português, com actores portugueses, e parcialmente filmada em Portugal, é suficientemente para a flor fina da casta cinematográfica, literária e intelectual portuguesa ficar orgulhosa e rendida, e para o citar, nos jornais, revistas e programas de televisão como a maravilha que, infelizmente (pelo dinheiro e tempo gasto, quer pelos produtores, quer pelos espectadores!), não é. Opiniões são opiniões, é certo, e cada um tem todo o direito de ter a sua, como eu tenho a minha, mas após visualizar este filme apenas posso dar duas explicações: ou estes senhores ficaram tão cegados com esta fachada mediática, este orgulho nacional quase patético (pois demonstra o nosso desespero por grandes produções cinematográficas, que são tão raras neste país), ou então não têm coragem, perante este mediatismo, de assumir uma posição verdadeira, e atacar o filme pela sua clara falta de qualidade. Infelizmente, isto é um fenómeno que também extravasa o país. A sua sumptuosidade, aliada ao nome do realizador, é suficiente para o fazer ganhar pelo menos um prémio internacional num dos milhares de festivais existentes (um qualquer lá se deixa enganar), e portanto a juntar a todo o mediatismo, a atribuição deste prémio num festival (de um filme que nem é mencionado em todos os outros festivais) faz a sua reputação crescer, embora, muito honestamente, não o mereça. 

Senão vejamos. ‘Mistérios de Lisboa’ é realmente, confesso, um filme soberbo, mas apenas a um nível: ao nível do design de produção. Os maravilhosos cenários, as cores, o guarda-roupa ou os adereços são realmente espectaculares e incrivelmente realistas, mesmo considerando os parâmetros normais de um filme de época. Contudo, aos restantes níveis o filme falha (na minha opinião, repito) redondamente. Começando pela realização, Raul Ruiz escolhe sempre planos longos e afastados. Raramente há um close-up e a câmara está sempre à distância. Isto é satisfatório para marcar uma posição, para pontuar o distanciamento da arte cinematográfica da literal, para permitir ao público sorver as belas localizações onde o filme foi rodado. Contudo, não se vê a expressão de um único actor. Não há emoção e a câmara, tal como os actores, é impassível. O seu movimento (muito frequentemente à volta dos cenários) não é balético, apenas mecânico. Não chega a ser teatro filmado (porque não é teatro, é romance), e não chega a ser filme. Então é o quê? É romance filmado, o que nos leva ao segundo ponto: o argumento.

Peter Jackson uma vez disse que se filmasse o ‘Senhor dos Anéis’ página a página seria o caos. Certamente Ruiz não ouviu essas declarações. ‘Mistérios de Lisboa’ é (ou deve ser, nunca li o livro), o romance filmado página a página. As cenas sucedem-se dengosas, de diálogos morosos e confusos. Não há um encadeamento lógico. Não há uma legenda que nos mostre o local e a data do que está a acontecer. O filme muda de França para Portugal, de Portugal para o Brasil, para a frente no tempo, para trás no tempo, e nada o dá a entender. Só a meio das cenas, devido ao diálogo, à menção do nome de uma personagem, nos apercebemos do que se está a passar. Mas, por essa altura, devido ao tempo que a cena demorou a lá chegar, já não nos importamos. A história, tal como está apresentada, é impossível de seguir. Só a perceberá quem leu o romance e mesmo assim desconfio que só a perceberá quem o tenha lido mais que uma vez e o conheça bem. É um filme que não tem capacidade de se suster sozinho, é muito mais um acompanhamento visual, mas isso, lembre-se, não pode ser a missão de um filme. 

Para além do mais, a história não tem interesse nenhum. A personagem principal (ou suposta principal), Pedro da Silva, um miúdo num orfanato que desconhece as suas origens, é esquecida logo no início e só é retomada no último acto. Passamos 4 ou 5 horas a ver histórias paralelas do padre que o criou, do sem abrigo (tornado posteriormente rico), que o salvou, dos amores de sua mãe, e de outras personagens que só muito remotamente têm a ver com o miúdo. Mesmo assim isto seria justificável, teria lógica estrutural, se as acções destas personagens se vertessem na própria história de Pedro da Silva. Mas não se vertem. Isto são história soltas da vida destas personagens, que não têm consequência nenhuma na acção suposta principal. Este filme não retrata, na realidade, os ‘Mistérios de Lisboa’. Retrata ‘histórias de vida, dos amores e das desgraças de pessoas que remotamente têm a ver com Pedro da Silva’. Só raramente, através da personagem do Padre (que parece ser o elo de ligação) é que estas histórias se entrelaçam. Mas então porque é que não é o Padre a personagem principal. Porque é que no último acto o filme abandona todas as personagens que passou as últimas 6 horas a construir (desconhecemos como termina a sua história) e se foca de novo no miúdo, agora já adulto, e aí sabemos como termina a sua história, que contudo não foi construída de forma alguma! Isto sim, é um verdadeiro ‘Mistério’.

Falar da actuação é levar as mãos à cabeça. Não há um pingo de expressividade em 7 horas de filme (ou 4h30, se virem a versão curta – eu, infelizmente, vi a longa). Será devido à solenidade do material? E é esta a razão para o tempo que demoram a dizer cada frase, para as pausas entre diálogos, para aqueles momentos em que ambos os actores ficam mudos e quietos, como se tivessem uma ausência epiléptica, para largos segundos depois recomeçarem a falar? Estariam a fazer vénias mentais à mestria da linguagem de Camilo? Ou será devido a serem péssimos actores? Felizmente havia um ou outro actor estrangeiro nesta produção para compensar a falta de qualidade das nossas colheitas nacionais (ou pelo menos daqueles que conseguem lugares nestes filmes, que actores bons há, sem dúvida, neste país, em muitos teatros pelas ruas da amargura).

Bem, podia estar aqui até depois de amanhã a dizer porque é que ‘Mistérios de Lisboa’ é pomposo, enfadonho e, se não incompreensível, pelo menos sem dinâmica alguma que faça o espectador o querer compreender, mas não me apetece (pois já perdi 7 horas da minha vida em vão) e o leitor provavelmente não acreditará em mim porque ouviu tanta boa gente (por vezes muito bem intencionada) a dizer maravilhas desta produção. Reitero que é preciso ser honesto e olhar para cada produção com ‘tábua rasa’, com um olhar que não precisa de ser crítico, apenas verdadeiro, liberto de toda a publicidade impingida e contextualização forçada. Dizer nos créditos ‘baseado numa obra de Camilo Castelo Branco’ e filmá-lo no interior de palácios sumptuosos com um estrangeiro ao leme da produção não significa, automaticamente, ‘bom filme’. Quem viu o filme, viu-o realmente, mais além destes factores que geralmente seduzem os críticos, mais além do design de produção, não poderá dizer que o filme é bom. Honestamente. Não é. É um romance filmado. De longe e sem paixão nenhuma, sem sabor, sem emoção. É frio e insosso. E esta é a minha declaração, sem ódio ou qualquer rancor. O filme é, honestamente, mau. Por vezes acontece, mesmo aos melhores. Mas quando acontece é preciso dizê-lo.

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Quem escreve

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Miguel. Portuense. Nasceu quando era novo e isso só lhe fez bem aos ossos. Agora, com 31 anos, ainda está para as curvas. O primeiro filme que viu no cinema foi A Pequena Sereia, quando tinha 5 anos, o que explica muita coisa. Desde aí, olhou sempre para trás e a história do cinema tornou-se a sua história. Pode ser que um dia consiga fazer disto vida, mas até lá, está aqui para se divertir, e partilhar com o insuspeito leitor aquilo que sente e é, quando vê Cinema.

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