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A Canterbury Tale

Ano: 1944

Realizadores:  Michael Powell, Emeric Pressburger

Actores principais: Eric Portman, Sheila Sim, Dennis Price

Duração: 124 min

Crítica: Ver num filme um genérico que ostenta ‘Escrito, Produzido e Realizado pelos Arqueiros’ poderá parecer algo estranho a quem não está familiarizado com o cinema inglês dos anos 1940. Na verdade, os auto-intitulados ‘The Archers’, a dupla invulgar constituída pelo inglês Michael Powell e o húngaro Emeric Pressburger, foram mais que os autores de excelência do cinema britânico dessa década. Juntos são um dos melhores realizadores/autores que o cinema alguma vez conheceu e juntos produziram um conjunto de obras-primas que provavelmente serão recordadas para sempre. Apesar de provirem de contextos diferentes, estes dois autores encontraram uma visão artística comum, e a sua mestria conjugada produziu, com honestidade e humildade, filmes épicos com uma extrema beleza e uma magnífica composição, que inspiraram gerações e gerações de outros cineastas e de amantes da sétima arte.

Das suas maiores obras destaca-se ‘The Live and Death of Colonel Blimp’ (1943, um dos meus filmes favoritos), ‘A Matter of Life and Death’ (1946), ‘Black Narcissus’ (1947) ou ‘The Red Shoes’ (1948, o filme definitivo sobre ballet, adorado por legiões de dançarinas até aos dias de hoje). Apesar de geralmente serem estas as obras destacadas da sua filmografia, a maior parte dos filmes que fizeram em conjunto (Powell teria também uma carreira a solo com títulos relevantes) merecem atenção. O drama ‘I Know Where I am Going’ (1945) ou a opera cinematográfica ‘The Tales of Hoffman’ (1951), por exemplo, merecem ser vistos pela pura beleza cinematográfica da sua concepção.

‘A Canterbury Tale’, por seu lado, um trabalho considerado menor, raramente relembrado, é na verdade um filme maravilhoso, quase até ao ponto de ser surrealmente maravilhoso. Em 1944 o Reino Unido estava embrenhado na Segunda Guerra Mundial, e a maior parte dos estúdios cinematográficos estavam a produzir exclusivamente comédias ou filmes para tentar elevar a moral dos soldados ou da população. Estes geralmente envolviam espiões Alemães que se tentavam infiltrar em Inglaterra (a famosa quinta coluna) e heróis vulgares e acidentais que, por amor à pátria, acabavam por salvar o país. Hitchcock realizou filmes deste tipo. Os próprios Arqueiros também. ‘49th Parallel’ (1941) ou ‘One of Our Aircraft Is Missing’ (1942) são típicos produtos do cinema durante a Guerra. Blimp, que se seguiu a estes dois filmes em 1943, foi um filme de guerra tão incisivo que o próprio Churchill tentou bani-lo. Talvez por isso, no seu filme seguinte, ‘A Canterbury Tale’, os Arqueiros optaram por uma coisa completamente diferente. Este filme não é uma comédia nem é um filme para criticar a guerra ou abertamente elevar a moral dos soldados. Considerando a altura em que foi lançado e aquilo pelo qual o país estava a passar, este filme é uma obra completamente ousada. E mais uma vez isto é feito de uma forma completamente humilde e verdadeira, e nada espalhafatosa. Só os Arqueiros é que poderiam ter a mestria e a coragem suficientes para lançar um filme desta natureza numa altura tão crítica da História, e saber, para além disso, que estavam certos em fazê-lo.

O filme abre com a leitura do poema ‘Canterbury Tale’ de Chaucer, acompanhado por cenas que mostram um conjunto de aristocratas do século das luzes numa típica caçada inglesa. Quando um deles liberta um falcão, a câmara segue o seu voo. De repente, num fade imitado por Kubrick vinte anos depois, este falcão torna-se um avião, e saltamos dois séculos para Inglaterra de 1944. Um comboio pára numa pequena vila perto de Canterbury e três pessoas apeiam-se. Uma rapariga jovem com um passado que deseja esconder, um soldado inglês que tem uma paixão por música de órgãos de igreja (que é irremediavelmente atraído à Catedral de Canterbury) e um soldado americano cuja maior preocupação neste momento é não ter recebido ainda cartas da sua namorada. Quando os três partem da estação para a vila, um vulto desconhecido escondido nos arbustos despeja um frasco de cola no cabelo da rapariga. Rapidamente descobrem que isto não é um acontecimento isolado, e fenómenos igualmente estranhos andam a ocorrer na vila.

Sempre sob a sombra da majestosa Catedral de Canterbury, uma figura poderosa sempre presente e que domina os enquadramentos do filme, os três procuram resolver, com a engraçada ajuda das crianças da vila, este mistério ligeiro, que nada tem a ver com os horrores da guerra que está distante mas estranhamente perto. Está perto porque ainda existe dentro deles e cada um, à sua maneira, tenta lidar com os seus próprios, e mais sérios, demónios interiores. É esta profundidade, escondida no que à superfície parece um filme à la Miss Marple com teores levezinhos, que dá consistência e qualidade ao filme. No final, o filme acaba por ser ostensivamente sobre nada. Oferece piadas engraçadas que permitem libertar umas risotas, tem situações parvas mas no bom sentido, as personagens da vila, como não podia deixar de ser, são hilariantemente peculiares, e no fim os mistérios são resolvidos e há uma espécie de moral clássica de tempo de guerra. Sabemos que segredos esconde o presidente da vila, sabemos quem atirou a cola à mulher e porquê, e todas as personagens resolvem os seus problemas interiores numa forma quase divina, à luz da Catedral. Por isso é fácil de perceber porque é que o filme foi perdendo fãs até ser praticamente esquecido. O público de hoje poderá achá-lo oco e sem sentido se o interpretar apenas superficialmente. Mas primeiro há as sub-correntes emocionais escondidas na história mais simples. E segundo há a suposição do quão maravilhoso terá sido ver este filme numa sala de cinema entre bombardeamentos em Londres em 1944. Por duas horas essas pessoas esqueceram os seus problemas do dia-a-dia em Guerra, com uma história simples, que inclui soldados de uma forma engraçada, nada ofensiva ou desrespeitosa e muito humana, com cenas fascinantes com os típicos cidadãos ingleses das muitas vilas do país, e que mostra com belos planos de câmara um dos maiores e mais belos monumentos de Inglaterra, a Catedral de Canterbury, um símbolo ainda maior nesse tempo por não ter sido atingida, uma pedra que fosse, no Blitz. Se pensarmos bem em todos estes aspectos, sem o parecer, muito subtilmente, este é o filme de ‘elevar a moral’ perfeito. Churchill nem deve ter olhado para ele duas vezes, para o banir ou usar como estandarte da moral britânica, mas estou seguro que quem quer que o tenha visto na altura, terá certamente ganho coragem para enfrentar o resto da guerra, ou pelo menos terá ido para casa com um calorzinho confortável na alma.

A isto junta-se o facto de em termos técnicos ser sempre soberbo. Pouco são os realizadores ou técnicos de fotografia que possuem o olho dos Arqueiros para a composição de uma cena. Neste filme destaco também as cenas à noite. O jogo de luz e sombra demonstrado é suficiente para causar inveja a Orson Wells.

‘A Canterbury Tale’ é um filme maravilhoso e leve, com alguns breves toques de seriedade, que procurou funcionar como uma forma de escapismo consciente e de qualidade, e algo mais profundo, para um público inglês a viver a guerra. É um típico produto dos Arqueiros. Eles sabiam o que queriam construir, o que queriam produzir, e sem pretensões de fazer algo mais que isso, fizeram-no. Poderá não ser o seu melhor filme, é certo, mas fizeram-no, mais que ‘The Live and Death of Colonel Blimp’ (hoje símbolo do cinema britânico do período da Guerra), por amor a um país e ao seu povo, que estava a sofrer. E quem sofre não quer ser lembrado que está a sofrer. Quer viver. E viver é ter emoções, pequenas, breves, leves, mas verdadeiras. Com amor, este filme dá estas pequenas emoções sem qualquer pretensão. É essa mesma força amorosa que está presente em ‘The Red Shoes’ (amor ao ballet) ou em ‘The Tales of Hoffman’ (amor à opera). O seu filme subsequente ‘I Know Where I am Going’ (1945) é outro drama amoroso escapista do período de guerra, e outra contida e humilde obra-prima.

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Miguel. Portuense. Nasceu quando era novo e isso só lhe fez bem aos ossos. Agora, com 31 anos, ainda está para as curvas. O primeiro filme que viu no cinema foi A Pequena Sereia, quando tinha 5 anos, o que explica muita coisa. Desde aí, olhou sempre para trás e a história do cinema tornou-se a sua história. Pode ser que um dia consiga fazer disto vida, mas até lá, está aqui para se divertir, e partilhar com o insuspeito leitor aquilo que sente e é, quando vê Cinema.

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