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Cinco paródias cinematográficas a Cary Grant


Cary Grant pode não ter sido um dos melhores actores de Hollywood, mas foi sem dúvida alguma, justificadamente, uma das suas maiores estrelas. Ele era o arquétipo do actor clássico: tinha o look, tinha a pose, tinha o charme, tinha o carisma, tinha timing cómico, tinha uma personalidade cinematográfica irresistível e até, mais tarde na sua carreira, uma ambiguidade que lhe dava profundidade dramática (obrigado Hitchcock!). O documentário sobre a sua vida feito em 2004 tem um título mais que adequado 'Cary Grant: A Class Apart'. Ele era mesmo uma classe à parte.

Em EU SOU CINEMA já demonstrei o meu afecto por Cary Grant muitas vezes, e já critiquei individualmente três dos seus filmes em fases distintas da sua carreira: 'Mr Lucky' (1943); 'The Bishop's Wife' (1948) e 'Charade' (1963). É sempre um prazer para o cinéfilo dedicado encontrar Cary na sua televisão e vejo recorrentemente muitos dos seus filmes: 'Bringing Up Baby' (1938), 'Arsenic and Old Lace' (1944) ou 'North By Northwest' (1959). Curiosamente, esta semana não estava a ver um filme de Cary Grant, mas sim um episódio de 'Top Cat' com o meu filho, quando fui recordado da personagem de Fancy-Fancy, uma simpática paródia à persona de Cary Grant. O seu estilo era tão vincado que a paródia sempre surgiu naturalmente. Mas o respeito e a paixão pelo actor sempre foi imutável ao longo das décadas. Assim, as paródias nunca foram ofensivas, antes tentaram partilhar da secreta magia cinematográfica que transformou o jovem de Bristol Archie Leach numa das personalidades mais icónicas da história de Hollywood.

Acompanhe-me, caro leitor, numa breve visita por algumas das paródias cinematográficas que me recordo de Cary Grant. Se se lembra de outras, não hesite em partilhar. E não se esqueça de descobrir ou redescobrir Cary Grant, continuando a ver os seus filmes. Não há ninguém em Hollywood hoje que se lhe equipare. E provavelmente nunca haverá.


Jack Rhodes (Burt Reynolds) em 'Rough Cut' (1980)

Sempre que vejo um filme de Burt Reynolds (felizmente são poucas vezes) pergunto-me como é que foi possível ter havido um momento no tempo em que ele era um dos actores mais populares e mais rentáveis de Hollywood. A resposta é: estávamos nos anos 1970 e 1980. Reynolds nunca foi um grande actor e os seus filmes nunca foram grandes filmes. Mas tinham uma aura kitsch que se ajustava à época, e um misto de paródia auto-consciente e acção leve que apelava a um púbico familiar. 'Rough Cut' é mais um filme neste estilo descontraído de aventura e comédia, que anda à volta de um par de ladrões de jóias. Na cena que abre o filme, Reynolds está de tuxedo numa festa glamorosa e vê a personagem interpretada por Lesley-Anne Down. Quando a tenta engatar começa a falar com o sotaque de Cary Grant e é, tentando ser simpático, terrivelmente mau. Lesley-Ann concorda já que lhe pergunta: "Porque é que está a imitar Tony Curtis?" (ver a penúltima entrada deste post). Quando Reynolds responde "Não estou a imitar Tony Curtis, estou a imitar Cary Grant" ela continua "Está a imitar Tony Curtis a imitar Cary Grant. Já nem Cary Grant faz de Cary Grant agora"... Verdade!



Howard Bannister (Ryan O'Neal) em 'What's Up, Doc?' (1972)

Igualmente, nunca fui grande fã do cinema de Peter Bogdanovich. Ele tentou ser o Truffaut americano, na medida em que era um crítico e documentarista que se tornou realizador de obras inspiradas nos grandes clássicos da era dourada de Hollywood. Mas apesar de ter a reverência e o conhecimento necessário, Bogdanovich não tinha a inspiração para ser um grande realizador. As suas obras são morosas e sem ritmo, exercícios de forma sem chama. Assim é também para mim um dos seus maiores sucessos de bilheteira, 'What's Up, Doc?' (1972), uma tentativa de recriar a aura cómica de 'Bringing Up Baby' (1938) com Barbra Streisand como "Katherine Hepburn" e Ryan O'Neal como "Cary Grant". Nesse sentido, há alguma frescura na paródia, já que este não é o Cary Grant charmoso e ambíguo das décadas de 1940 e 1950 mas o Cary Grant mais cómico, nervoso e nerd do screwball da década de 1930. Contudo, O'Neal está apagado porque imitar o nervosismo cómico não basta. Cary Grant tinha sempre carisma, até em papéis menos dinâmicos. O carisma de Ryan O'Neal não é suficiente para suster a comédia e ele empalidece e comparação com a muito mais dinâmica Babs. Mesmo assim, sustém essa persona todo o filme, tornando esta a mais longa homenagem cinematográfica conhecida a Grant. Fica a cena em que as personagens de Babs e O'Neal se conhecem.



Fancy-Fancy (voz de John Stephenson) em 'Top Cat' (1961-1962)

'Top Cat' sempre foi, e continua a ser, uma das minhas séries de animação preferidas. Feita pelos icónicos estúdios Hanna Barbera durante a sua época dourada, os anos 1960, 'Top Cat' é irreverente, engraçado mas acima de tudo tem classe, não tanto na animação (é um típico produto televisivo) mas nos argumentos e nos trabalhos de voz. A série, que teve apenas uma única temporada de 30 episódios, segue as aventuras e desventuras de um grupo de gatos de um beco, liderados pelo sagaz Top Cat, que estão sempre à procura de um esquema para fazer dinheiro fácil contra todas as diligências do agente de autoridade Dibble. O gangue de Top Cat é multifacetado e inclui um gato chamado Fancy-Fancy, o galã do grupo que se parece e fala como Cary Grant. Fancy é um gato relaxado, bem-falante e bem-parecido; enverga sempre um lencinho ao pescoço e é o mais bem aprumado. Na maior parte dos episódios é visto a engatar uma gatinha, somente para a largar quando ouve o chamamento de Top Cat. O actor John Stephenson, um especialista em vozes para shows de animação, não faz propriamente uma grande imitação vocal de Grant. Mas parodia o seu cliché com o mesmo charme urbano com uma ponta de surrealismo com que a série parodia todos os outros clichés. Fica uma cena em que podemos ver Fancy a partir dos 37 segundos.




Joe como Shell Oil Junior (Tony Curtis) em 'Some Like It Hot' (1959)

A mais famosa de todas as paródias cinematográficas a Cary Grant é aquela que Tony Curtis protagonizou na seminal comédia de Billy Wilder 'Some Like It Hot' (1959). Nesse mesmo ano, Curtis contracenou com o próprio Grant em 'Operation Petticoat' e talvez isso o tenha levado a decidir optar por uma aberta sátira ao cliché do grande actor, quando a sua personagem se mascara de herdeiro de uma enorme fortuna petrolífera para seduzir Marilyn Monroe, aqui no pico absoluto da sua arte e da sua beleza. Por entre uma obra brilhantemente filmada, que mistura comédia com filme de gangsters, este segundo disfarce de Curtis (ele e Lemmon passam metade do tempo mascarados de mulheres), é igualmente hilariante mas algo injusto. Quer Curtis (um inveterado ladies man) quer Lemmon são bastante mesquinhos com as mulheres ao longo do filme, pelo que esta versão de Grant é apenas mais um "esquema". Curtis transforma-se num nerd galã relutantemente sedutor, uma mistura crua das duas grandes personalidades de Grant, mas fá-lo de forma consciente e cirúrgica para conseguir obter que quer. Contudo, a sua interpretação tem também um charme surreal, dinamicamente fluído, e um tragicismo cómico que é raro de ver. Pode ser injusto, mas nunca é ofensivo, e serve sempre o propósito cómico. Fica a cena em que Shell Oil Junior conhece a Sugar Kane de Marilyn.



Archibald Leach em toda a sua carreira

Mas o maior imitador de sempre de Cary Grant foi o próprio Cary Grant. Numa entrevista disse "Toda a gente gostaria de ser Cary Grant. Incluindo eu próprio". Noutra disse "Sempre tentei interpretar Cary Grant". Nascido Archibald Leach no seio de uma humilde família inglesa, Grant usou o seu carisma e o seu charme natural para subir lentamente até se tornar uma das maiores estrelas da história de Hollywood. É de supor que o seu sotaque original fosse algo mais parecido com o cockney, mas Grant provavelmente trabalhou-o até atingir a particular entoação, semi-erudita, semi-popular, que o caracterizava e que tão parodiada foi ao longo das décadas. E é de supor igualmente que todos os outros aspectos da sua personalidade foram sujeitos a iguais processos de transformação para atingir o ideal que foi Cary Grant. Mas o facto de no íntimo ser sempre Archie Leach era uma mais valia. O facto de Leach ter sido acrobata na sua juventude auxiliou as movimentações de Grant nas comédias screwball. O facto de Leach ter tido um começo difícil e ter chegado onde chegou pela beleza da sua presença e a perseverança do seu talento, ajudou Grant a criar uma imagem marcante e imutável. Daí ter-se sentido desadequado quando o cinema mudou na década de 1960. Daí ter decidido retirar-se em 1966, porque envelhecer à frente das câmaras significaria ter que aceitar outro tipo de papéis e ter que alterar a sua imagem. Assim recordamo-lo sempre com a imagem que Leach concebeu, recordamo-lo sempre como Cary Grant. E é assim que deve ser. Fica o tributo do canal TCM ao único, ao incomparável, ao glorioso Cary Grant, narrado pelo seu amigo próximo, Michael Caine.


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Miguel. Portuense. Nasceu quando era novo e isso só lhe fez bem aos ossos. Agora, com 31 anos, ainda está para as curvas. O primeiro filme que viu no cinema foi A Pequena Sereia, quando tinha 5 anos, o que explica muita coisa. Desde aí, olhou sempre para trás e a história do cinema tornou-se a sua história. Pode ser que um dia consiga fazer disto vida, mas até lá, está aqui para se divertir, e partilhar com o insuspeito leitor aquilo que sente e é, quando vê Cinema.

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