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Histoire(s) du Cinema: Trois Couleurs (1993-1994); ou a como comprar bons filmes originais a preços de saldo em Portugal

Longe vão os tempos em que, na folia da juventude, com poucos filmes que podia apelidar de meus e com dinheiro de mesadas para gastar, me dignava a comprar DVDs pelas quantias exorbitantes a que estão à venda no mercado. E por quantias exorbitantes quero dizer tudo acima dos 15 euros. Comprar um único filme numa edição restaurada, de coleccionador, com um ou dois discos de extras e um livrete grossinho por 10 ou 15 euros; ou dar 30 ou 40 euros por uma caixa com uma dezena de filmes eu aceito. Agora pagar 25 euros por um único DVD de um único filme só porque é recente é um pouco escandaloso. Pagar quase 40 euros por um blu-ray 3D de um único filme roça o obsceno. E nem me atrevo a falar dos 4K… (seriously, a definição do blu-ray não chega?).

Quando os DVDs começaram a ser lançados no início deste milénio custavam cerca de 2.500 escudos (cerca de 12,5 euros). É normal, eram uma novidade, e após décadas de VHS com má qualidade de imagem e principalmente com a mutilação do pan-scan, ver finalmente cinema em casa num rácio alargado e com restauros digitais foi uma verdadeira bênção. Da mesma forma, quando começaram a ser lançados os blu-rays, era preciso distingui-los, em termos de preço, dos DVDs e portanto ascenderam a valores entre os 20 e os 30 euros por filme. Não vou dizer que nunca comprei DVDs e blu-rays a esse preço. Claro que já o fiz, ocasionalmente. Mas já não o faço há muitos, muitos anos. Já não o faço desde que assentei numa vida de trabalho, numa vida de casado, numa vida de pai. O prazer subliminar de gastar uma pipa de massa num hobby que se preza é sempre satisfatório, e ainda mais na juventude. Dá a sensação de que somos alguém. Mas quando já somos alguém e podemos fazer exactamente a mesma coisa por metade (ou menos) do preço, é ainda melhor.


Não. Nunca mais voltei a comprar DVDs e blu-rays a esses preços exorbitantes, mas a minha estante não ficou mais pobre, nem deixei de ter as melhores obras nem as mais recentes. Primeiro é tudo uma questão de paciência. Para quê gastar 25 euros num DVD de um filme que daqui a dois anos pode estar a 5 euros? Segundo, para quem não se importa de ver filmes sem legendas em português, há uma coisa chamada compras online. Toda a gente sabe que aqui em Portugal há preços estranhamente altos em muitas coisas; gasolina, portagens, mas também DVDs. Já comprei muitos filmes em muitas lojas por essa Europa fora; quer fisicamente quer online; lojas essas que existem também cá, mas onde os DVDs não têm o mesmo preço. Curioso, tendo nós uma qualidade de vida mais baixa do que a grande parte dos países da Europa Central. É para ver se gastamos menos em cultura e mais em bens de primeira necessidade?

Terceiro, é tudo uma questão de atenção, muita atenção e sensibilidade. Mesmo cá em Portugal é possível manter o vício de forma saudável e económica. Não passo um mês sem comprar um ou outro DVD, mas na maior parte das vezes nem 10 euros por mês gasto. Coisa pouca. Duas semanas de cafés. Mas eu não tomo café, nunca tomei, portanto não estou a gastar mais dinheiro que o caro leitor. Cada um tem as suas prioridades. Ainda o mês passado comprei os blu-rays de ‘Dances with Wolves’, ‘When Harry Met Sally’, ‘Moon’ e ‘The King of Comedy’ a um/dois euros cada. Novos. Selados. Numa loja portuguesa. Em Portugal.

Qual é o segredo? Bem, o segredo é um misto de tudo o que disse em cima: paciência, atenção, sensibilidade e também alguma flexibilidade. Todas as principais lojas que vendem filmes em Portugal, seja a FNAC, a Worten, a Media Market ou o Jumbo (compro em todas regularmente, não descrimino) têm os seus caixotes de descontos e promoções, quer na loja física quer online. São filmes que já não são “do momento”; são edições económicas (inúmeras de editoras espanholas, muitas vezes sem qualquer extra mas muitas com legendas em português); são finais de stock (nacionais ou internacionais, que neste caso podem não ter legendas em português); e são filmes em campanha, ou da loja, ou da editora, ou da própria produtora do filme (a Disney, por exemplo, faz o seu 2 por 1 duas vezes ao ano). Se um fiel comprador como eu visitar as lojas com relativa regularidade (uma vez por mês, se tanto, chega-me), se estiver atento aos sites e às promoções relâmpago, e se tiver a sensibilidade da experiência para não se apressar e esperar pelo momento certo, pode fazer compras extraordinárias a preços ridículos. É uma questão de sorte. Mas também é uma questão de prática.


Posso dar inúmeros exemplos. Ainda recentemente comprei uma edição rara de 3 discos do clássico de Louis Feuillade, ‘Les Vampires’ (1915, 1916). Preço final: 3 euros (era um final de stock). Todos os anos, por alturas da festa do cinema francês, há um hipermercado em Portugal que se enche de inúmeros filmes franceses, clássico e recentes. Preço da unidade: 1 euro. É aí, ano após ano, que actualizo a minha colecção de cinema francês. Há uns meses comprei o blu-ray de ‘The Great Gatsby’ (1974) por 3 euros quando a mesma loja na semana seguinte já o tinha a 20. E há cerca de um ano até consegui comprar um filme por 30 cêntimos. Novo e selado de fábrica. Mas também era uma comédia dos anos 1980 com Burt Reynolds, por isso até se percebe. Não valia mais do que isso. Porém a compra que mais me orgulho de ter feito foi a da caixa da editora mk2 da trilogia das cores de Krzysztof Kieslowski. Preço final da caixa: 1 euro. Exactamente. 1 euro. Novo. Selado. Numa loja portuguesa. Em Portugal.

Tudo ocorreu algures no início de 2010, se a memória não me falha. Nessa noite saí com uma amiga e fomos ao centro comercial. Mais tarde iríamos jogar bowling com uns amigos mas tínhamos algum tempo para matar. Assim, andamos pelas lojas e eu decidi ir a uma das quatro lojas que em cima mencionei (não quero estar aqui a fazer publicidade…). Enquanto percorria o olhar pela estante dos DVDs com o meu olho treinado, vi a caixa em questão e instintivamente fiz o passo de dança típico dos cinéfilos. Estiquei a mão, tirei-a da estante e rodei-a, para ver o preço. Mas o que vi quando baixei o olhar deixou-me extremamente abananado. Tanto que até o mostrei à minha amiga para ver se, cegueta como sou, não estava a ser vítima de uma ilusão de óptica. Aparentemente não estava. O preço na etiqueta dizia claramente “1 euro”.

Ora não sei se já aconteceu ao leitor, mas a mim já me calhou na sina (mais que uma vez até) chegar à caixa e aperceber-me que houve algum engraçadinho que andou a trocar as etiquetas aos produtos. Odeio quando isso acontece porque os senhores honestos da caixa ficam sempre a achar que somos nós que lhes estamos a tentar passar a perna e olham para nós de soslaio quando nos tentamos defender. Assim sendo, sempre que vejo um preço escandaloso como este, olho mais atentamente para o resto da etiqueta para saber se a cara bate com a careta. Neste caso, parecia bater. 


Mas para tirar todas as teimas antes da embaraçosa ida à caixa, chamei um empregado e pus-lhe a pertinente questão. Não estou a exagerar quando digo que o homem fez uma cara completamente incrédula quando olhou para a etiqueta. Abanou ligeiramente a cabeça e olhou outra vez. Depois olhou para mim e disse “Se é o preço que está marcado na caixa, então está correcto”. Porreiro, pá. Não precisei de ouvir mais nada. Nem queria. Agarrei-me bem à caixa (não fosse alguém faná-la das minhas mãos) e dirigi-me para a saída, ainda a achar que quando fosse pagar me iriam dizer que afinal tinha havido um grande mal-entendido. Mas por incrível que possa parecer, não disseram. Não disseram nada. Por um mísero euro, a trilogia das cores encontrou um novo lar, na minha estante. E está bem aconchegadinha na secção de cinema europeu.

Uma ou duas semanas depois, quando voltei ao mesmo centro comercial, fui à loja ver se o preço se mantinha. Afinal, estava ali uma excelente e económica prenda de aniversario para outro cinéfilo. Qual não foi o meu espanto quando vi a mesma caixa a cerca de 20 euros! Um escândalo. Bem, é um preço mais justo para o produto em questão, mas é um escândalo para quem a adquiriu 19 euros mais barata… E de dizer que uns meses mais tarde vi uma caixa de importação da mesma trilogia, sem legendas em português, numa outra loja portuguesa a… 70 euros!!!!! Ok, provavelmente tinha uns extras e livrete, mas mesmo assim… Já agora, uma pesquisa rápida na internet diz-me que a dita caixa agora anda à volta dos 20 euros. Bem, podia almoçar fora com os lucros se vendesse a minha...

Portanto, porque é que naquela semana, naquele dia em particular, a caixa estava a um euro? Manobras de marketing? Gestão de stock? Erro? Não sei nem quero saber. Sou um cinéfilo que gosta de comprar, e comprar bem. Não prescindo da qualidade (vá, a não ser quando o preço é MESMO barato, como no tal filme do Burt Reynolds). Mas prescindo completamente de gastar dezenas e dezenas de euros nisto. Tendo em conta o número de itens da minha estante, já teria ido à falência se não comprasse com olho para o negócio. E visto que a maior parte dos filmes que compro hoje em dia me custam menos de 5 euros, de vez em quando posso dar-me ao luxo de gastar mais para ter um filme mais raro, uma edição especial ou uma caixa de coleccionador com uma carrada de discos. E claro, sabe sempre bem. É o sabor do vício.


Portanto, caro leitor, agora é consigo. Claro que se quer comprar o ‘Justice League’ em 4K mal chegue às lojas, não tem hipótese, tem de pagar o elevado valor do mercado. Mas se o seu objectivo é ir construindo uma biblioteca neste mundo que cada vez mais se vira para o digital e o online, então faça como eu e aproveite. Aproveite que haja a noção de que as pessoas já não querem comprar filmes porque os podem ver no computador, e por isso os preços baixam. Aproveite que há aí muita editora que simplesmente os quer despachar. Aproveite para comprar filmes clássicos que são impossíveis de encontrar online. Aproveite para ter aquela edição de ‘The Godfather’, ‘Back to the Future’ ou ‘Lord of the Rings’ que sempre quis ter (tenho as três trilogias em edições de coleccionador e gastei nem 40 euros no total). 

Esteja atento. Circunde os caixotes das promoções de quando em quando. Dê uma olhadela aos quiosques e aos filmes que são lançados com os jornais. Veja os sites das lojas durante as promoções e ordene as suas pesquisas por ‘preço mais baixo’. Mas sobretudo tenha paciência. Vai sempre haver mais uma promoção. Vai sempre haver uma edição com uma nova capa que faz com que a edição anterior baixe exponencialmente de preço. E lembre-se, que o bom cinema esteja consigo. Se se guiar por isso, o resto surge naturalmente. 

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Quem escreve

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Miguel. Portuense. Nasceu quando era novo e isso só lhe fez bem aos ossos. Agora, com 31 anos, ainda está para as curvas. O primeiro filme que viu no cinema foi A Pequena Sereia, quando tinha 5 anos, o que explica muita coisa. Desde aí, olhou sempre para trás e a história do cinema tornou-se a sua história. Pode ser que um dia consiga fazer disto vida, mas até lá, está aqui para se divertir, e partilhar com o insuspeito leitor aquilo que sente e é, quando vê Cinema.

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