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The King's Speech

Ano: 2010

Realizador: Tom Hooper

Actores principais: Colin Firth, Geoffrey Rush, Helena Bonham Carter

Duração: 118 min

Crítica: Na cerimónia dos Óscares de 27 de Fevereiro de 2011, ‘The King’s Speech’ (em português ‘O Discurso do Rei’), que levava 12 nomeações, venceu 4 estatuetas: Melhor Argumento Original, Melhor Realizador, Melhor Actor Principal e Melhor Filme (!!!). Num ano que incluía ‘Inception’, ‘Black Swan’, ‘Blue Valentine’ ou ‘Biutiful’, o comum dos cinéfilos soltou uma valente gargalhada e depois abanou a cabeça descontente mas resignado pelo comercialismo superficial que a outrora altamente prestigiada cerimónia dos Óscares se tornou.

Todos sabemos o que é o filme-Óscar hoje em dia. Não pode ser um filme altamente artístico porque os Óscares querem chegar a um público alargado e nem todos os espectadores têm estofo para um ‘The Tree of Life’. Nem pode ser um filme que levante muitas questões (filosóficas, existenciais, sociais) para não gerar controvérsia nem muita polémica – não vá isso prejudicar a venda de bilhetes. Mas também não pode ser uma obra de um género “menor” (uma comédia por exemplo) porque os grandes filmes, de acordo com os padrões de alguns, só podem ser dramáticos. Assim, mantendo a ilusão de que a cerimónia continua a alimentar o prestígio e o glamour da arte cinematográfica, o filme-Óscar hoje em dia é um meio termo morno; um filme dramático com consciência social, mas que abdica de ser profundo e artístico para ser acessível e inspirador. Claro que um grande mestre como Clint Eastwood ou Iñárritu ainda pode fazer um grande filme dentro deste enquadramento, moldando-o aos seus propósitos. Mas nem todos têm esse talento.

"Não é que o filme seja propriamente mau. É preciso salientar que não é. Tem um argumento suficientemente bem escrito, boas interpretações, um exímio design de produção e uma realização sóbria que se ajusta ao material. Mas não é assim tão bom, mesmo tendo em conta que a fasquia do filme-Óscar está hoje bastante rebaixada. ‘The King’s Speech’ é um filme de época inglês “baseado em factos verídicos” totalmente rotineiro."

A cerimónia dos Óscares já desceu muito baixo em anos recentes, como quando deram o Óscar a ‘Slumdog Millionaire’. E hoje em dia está maioritariamente preocupada em refutar acusações de racismo para ser imparcial no seu julgamento. Mas nunca desceu tão baixo como neste ano de ‘The King’s Speech’, o vencedor mais injusto desde ‘Going My Way’ em 1944 e um dos piores filmes a alguma vez ganhar o Óscar de Melhor Filme, na minha humilde opinião. Não é que o filme seja propriamente mau. É preciso salientar que não é. Tem um argumento suficientemente bem escrito, boas interpretações, um exímio design de produção e uma realização sóbria que se ajusta ao material. Mas não é assim tão bom, mesmo tendo em conta que a fasquia do filme-Óscar está hoje bastante rebaixada. ‘The King’s Speech’ é um filme de época inglês “baseado em factos verídicos” totalmente rotineiro. Portanto, é para mim um mistério porque é que foi este e não qualquer outro filme de época inglês “baseado em factos verídicos” a encontrar tamanho sucesso nas cerimónias de prémios.

Bem, na verdade não é assim um mistério tão grande. Claro que um bom marketing é sempre meio caminho andado, não houvessem pressões das distribuidoras internacionais (principalmente a Miramax) para ter sempre um filme de época inglês nomeado para os Óscares (pensemos só nos últimos anos em ‘The Queen’, 2006; ‘Philomena’, 2013, ou ‘The Imitation Game’, 2014, todos baseados em “personagens reais inspiradoras inglesas”). Mas mais do que o marketing, todo o enquadramento de ‘The King’s Speech’ encaixa como uma luva na definição do filme-Óscar e no tipo de história que leva o espectador comum às salas de cinema nesta época do ano. É uma “história de bastidores” sobre uma personagem famosa, ainda por cima da realeza, ainda por cima com uma deficiência, ainda por cima em tempo de Guerra. Só não explora questões de toxicodependência e homossexualidade, mas já explora o suficiente. E a Weinstein Company bem que aproveitou esta conjuntura, iniciando uma grande campanha para convencer o resto do Mundo (antes sequer do filme ter uma distribuição alargada) de que estava aqui uma obra-prima. A táctica do costume para pré-condicionar os espectadores. Mas a mim é que não me lavam o cérebro, porque eu vejo todo e cada filme por mim, não por aquilo que os outros dizem. E por mim, ‘The King’s Speech’ não é mais que um telefilme histórico inspirador no mesmo comprimento de onda de qualquer outro telefilme histórico inspirador. Nem mais, nem menos. E por isso não tem absolutamente nada que o faça ser “o melhor filme do ano”.

‘The King’s Speech’ é realizado por Tom Hooper que até este ponto só practicamente havia feito televisão e dois filmes ingleses, 'Red Dust’ (2004) e ‘The Damned United’ (2009). O seu mais que imerecido Óscar de Melhor Realizador (devia ter sido dado a Christopher Nolan) permitiu-o iniciar uma carreira de realizador de filmes-Óscar (seguiram-se o péssimo ‘Les Misérables’, 2012, e ‘The Danish Girl’, 2015), mas se olharmos bem para ‘The King’s Speech’ vemos que ele se limita quase exclusivamente a filmar o argumento. A câmara move-se lentamente pelos cenários, quase sempre da mesma forma e sem se intrometer, enquanto as personagens conversam; uma lógica que praticamente só é quebrada pelos close-up intimistas e por vezes enviesados da personagem central: o rei George VI. Este monarca britânico (que reinou entre 1936 e a sua morte em 1952) é interpretado por Colin Firth, que adiciona ao seu estilo costumeiro uma persistente gaguez. Vale isso um Óscar? Talvez, apenas porque Firth o faz com uma enorme mestria, tornando algo que é difícil para a personagem fácil para o actor e fazendo-o soar nada forçado para o espectador.

"O “drama” que susterá todo o filme parece-me sempre muito menos grave do que o filme faz crer. Tudo bem, é normal que um príncipe queira ultrapassar a sua inaptidão para falar em público. Mas é difícil de imaginar que a reputação da realeza britânica, e mais tarde os destinos de toda a nação, dependam deste facto exclusivo (....) Esta dualidade torna a premissa dramática pouco credível e consequentemente pouco forte."

Quando o filme começa o futuro rei é apenas Albert, o segundo na sucessão ao trono atrás do seu irmão mais velho, o exuberante e bon vivant Edward (Guy Pearce). Assim sendo, como eterno príncipe, a missão de Albert é fazer pequenos discursos e ajudar pequenas causas, como começa por fazer na cena de abertura, numa tarde enevoada em Wembley; a primeira vez que fala oficialmente na rádio. Mas Albert, para além de estar visivelmente nervoso e afectado, tem um problema de gaguez desde a infância, e portanto os seus discursos têm pouca força já que ele se atrapalha constantemente.

Para mim, logo nesta primeira cena há algo que não resulta. Parece haver uma reacção excessivamente negativa a mais um discurso “falhado”. Veja-se com a assistência olha para baixo e abana a cabeça, e como a própria família olha para ele com decepção. É este o “drama” que susterá todo o filme, mas parece-me sempre muito menos grave do que o filme faz crer. Tudo bem, é normal que um príncipe queira ultrapassar a sua inaptidão para falar em público. Mas é difícil de imaginar que a reputação da realeza britânica, e mais tarde os destinos de toda a nação, dependam deste facto exclusivo, como o filme passa o tempo inteiro a tentar convencer o espectador. Esta dualidade torna a premissa dramática pouco credível e consequentemente pouco forte.

Para além do mais, é um daqueles filmes em que já sabemos o final antes de começar. Não estaríamos a ver esta história se Albert eventualmente não se tornasse rei, nem se Albert nunca tivesse ultrapassado o seu problema de gaguez antes do seu importante discurso no início da Segunda Guerra Mundial. Portanto, é o caminho até esse fim previsível (que surgirá sem qualquer tipo de suspense dramático) suficientemente interessante para prender o espectador à cadeira? Na minha opinião não. Principalmente porque o filme é monocórdico. As cenas sucedem-se umas atrás das outras sem grandes picos de emoção nos mais ou menos subtis elementos dramáticos. O filme é uma autêntica telenovela histórica, uma algo distorcida lição de história sobre uma nota de rodapé, com o intuito de dar humanidade a personagens famosas e daí tirar momentos inspiradores para o público actual. Cabe a cada espectador sentir se esse tipo de material lhe apela ou não.

A história, como não podia deixar de ser, é imensamente simples. A esposa de Albert, a futura Rainha Isabel (se Firth ganhou o Óscar, Helena Bonham Carter também deveria ter ganho), farta de o ver a “falhar” constantemente desta maneira e dos empertigados especialistas da corte que há anos não resolvem o problema do marido, decide requisitar os serviços de um pouco ortodoxo terapeuta da fala, o australiano Lionel Logue (interpretado pelo australiano Geoffrey Rush). Nós já vimos Rush a ser o “mentor” uma série de vezes, e aqui é simplesmente mais uma, embora com a sua fascinante classe costumeira e com um bom desenvolvimento da sua personagem (mais até que a de Albert, porque tem mais contexto e naturalidade).

"O filme é monocórdico. As cenas sucedem-se umas atrás das outras sem grandes picos de emoção nos mais ou menos subtis elementos dramáticos. O filme é uma autêntica telenovela histórica, uma algo distorcida lição de história sobre uma nota de rodapé, com o intuito de dar humanidade a personagens famosas e daí tirar momentos inspiradores para o público actual. Cabe a cada espectador sentir se esse tipo de material lhe apela ou não."

Contudo, apesar do filme se esforçar para que a relação entre os dois homens constitua o cerne emocional da história, o seu conteúdo é cíclico, relativamente desinteressante e previsível. É verdade que as cenas das “aulas” entre o Albert e Lionel são das mais fascinantes do filme, pois há química entre os dois actores, os diálogos fluem e há pequenos momentos de humor que ajudam a passar o tempo. Aliás, há também algum trabalho em definir a ponte emocional entre os dois homens. Lionel, um ávido fã de Shakespeare, é excelente na sua profissão mas paradoxalmente péssimo a declamar em teatro amador. Já Albert, na intimidade da sua família, esquece a gaguez e torna-se um excelente contador de histórias. Contudo, apesar deste trabalho, quando é preciso ir mais além, o oscarizado argumento parece saído de uma aula de primeiro ano, primeiro semestre, do curso “como escrever um argumento”.

Permitam-me que recorde ‘My Fair Lady’ (1964) e a relação entre outro terapeuta da fala, Henry Higgins, com a Eliza de Audrey Hepburn. O crescimento da sua relação vai estando sempre intrinsecamente ligado ao sucesso das aulas e dos exercícios. Mas em ‘The King’s Speech’ só vemos os exercícios como mecânica para oferecer alguma comédia de situação, não para exacerbar a relação entre professor e aluno. Os momentos de crescimento entre ambos são obtidos quando estão os dois sentados no sofá durante as pausas, e portanto os grandes avanços na cura (pelo menos aqueles que o filme mostra) são conseguidos não através da terapia da fala, mas da terapia psicológica. Lionel transcenderá a sua função de terapeuta, para se tornar uma espécie de mentor do futuro rei, guiando-lhe os passos para se tornar um justo governante. Por esse motivo tudo soa, mais uma vez, forçado. Por exemplo, quando Albert finalmente confia o suficiente em Lionel para lhe revelar pormenores da sua infância, notamos claramente que o está a fazer não para Lionel, mas para benefício do espectador. Quando assim é, a ilusão perde-se.

Mas há algo que resulta ainda pior. Estas cenas têm uma circularidade enervante. Relutante em sujeitar-se aos exercícios e às sessões de psicologia, Albert acaba sempre por discutir com Lionel por uma razão ou por outra e decide ir-se embora com um enfático “estas aulas terminaram”. Ambos amuam por mais tempo do que seria normal, mas depois, por uma razão ou por outra, acabam sempre por fazer as pazes e retomar. Acho que os dois homens se acabam por ligar mais por cansaço desta rotina do que por outra coisa qualquer, a não ser talvez por um interesse algo interesseiro que o filme se esquece convenientemente de explorar (afinal Lionel está a trabalhar para um membro da realeza, não ganha nada em deixar de o fazer…). O espectador, esse, ainda mais cansado fica com tanto “break-up” e “make-up”, mas é praticamente só disso que vive o filme. 

"E quando consegue fazer o discurso sem gaguejar (...), o filme fica com uma incompreensível sensação de dever cumprido e uma aura heróica. A Segunda Guerra Mundial está prestes a começar? Hitler está prestes a matar 6 milhões de Judeus? Não há crise meus amigos. O Rei fez um discurso sem gaguejar! Tudo ficará bem. Hip Hip… Hurray!… Patético."

Até que de repente o filme encontra o seu outro propósito, quando Albert se vê de um momento para o outro na iminência de se tornar o próximo rei. Numa linha argumental secundária que o filme vai seguindo em paralelo, percebemos ao de leve a instabilidade política que o Reino Unido vive nas vésperas da Segunda Guerra Mundial. Estas cenas tipicamente de “romance histórico inglês” permitem-nos passar pela demência e morte do Rei George V (Michael Gambon), a demissão do primeiro ministro e principalmente pelo autêntico melodrama em torno do príncipe herdeiro. Edward sempre viveu uma vida de ócio, festas e mulheres, e agora que é Rei pretende casar com uma mulher divorciada. Isso é demais para os padrões da realeza britânica e ocorre um ultimato interno; se quer casar com ela tem que abdicar do trono. É isso que acaba por fazer. 

E é assim que Albert se encontra, quase de surpresa, no trono, no preciso momento em que a nação entra na Guerra contra os nazis. Escusado será dizer que este período coincide com um dos momentos em que está chateado com Lionel, pelo que o seu problema, com todo o stress desta situação, se agrava consideravelmente (o drama, o horror!). De novo, isto seria o menos importante, não chegasse o filme ao seu objectivo e ao seu suposto momento inspirador que eu, até hoje, não consigo perceber se é assim tão inspirador como nos dizem. Neste momento crítico para a nação, Albert, agora o Rei George VI, tem de fazer um discurso. Afinal de contas é o Rei, pelo que isso é mais do que esperado. Mas para mostrar força, para mostrar que a Inglaterra não se vai deter perante a ameaça nazi, que vai lutar até ao último homem, o Rei não pode gaguejar. Faz sentido… até certo ponto.

Concordo que o Rei não possa hesitar, nem mostrar vulnerabilidade nem timidez como fazia inicialmente sempre que discursava. Agora se conseguisse mostrar força e confiança mesmo gaguejando numa ou noutra palavra, não creio que isso fosse muito grave ou fizesse grande diferença à nação inteira que o ouvia através do rádio. Portanto o real problema, para mim, não é o gaguejo. É a confiança que George demonstra a falar em público. Isso está implícito, claro, mas na maior parte do tempo o filme foca-se única e exclusivamente no gaguejo como se isso fosse a grande questão. A mais que esperada reentrada em cena de Lionel e até o drama interior de Albert são passados para segundo plano perante esta expectativa: gaguejará ou não gaguejará. E quando consegue fazer o discurso sem gaguejar (não há surpresa que o iria fazer, pois não?), o filme fica com uma incompreensível sensação de dever cumprido e uma aura heróica. A Segunda Guerra Mundial está prestes a começar? Hitler está prestes a matar 6 milhões de Judeus? Não há crise meus amigos. O Rei fez um discurso sem gaguejar! Tudo ficará bem. Hip Hip… Hurray!… Patético.

"Nos vários departamentos técnicos (design de produção, guarda roupa), nas interpretações (...), na excelente partitura (...) e na vertente de romance histórico (...) conseguirá satisfazer facilmente os fãs deste tipo de obras. Mas isso não é suficiente para tornar esta obra um grande filme, porque o enfoque não é esse. O enfoque é um drama íntimo de um homem que quer perder a gaguez por motivos, note-se, quase egocêntricos."

Sinceramente, e tendo em conta a atenção mediática que este filme teve, ‘The King’s Speech’ é uma grande decepção para o cinéfilo experienciado. Pode-se dizer que é um típico drama histórico inglês, e portanto nos vários departamentos técnicos (design de produção, guarda roupa), nas interpretações (ainda Timothy Spall como um excelente Churchill e Derek Jacobi como o Arcebispo), na excelente partitura do compositor Alexandre Desplat (que curiosamente não venceu o Óscar) e na vertente de romance histórico (principalmente nas “intrigas” da sucessão ao trono) conseguirá satisfazer facilmente os fãs deste tipo de obras. Mas isso não é suficiente para tornar esta obra um grande filme, porque o enfoque não é esse. O enfoque é um drama íntimo de um homem que quer perder a gaguez por motivos, note-se, quase egocêntricos. De facto, Albert nunca é visto a falar sobre os destinos da sua nação, apenas do seu dever e do desejo de o cumprir (leia-se deixar de gaguejar). Até o seu heroico discurso é escrito por um assessor, não por ele. A sua missão é apenas declamá-lo. Portanto não sabemos se será um bom rei. Só sabemos que deixou de gaguejar. Isso é suficiente? Dificilmente. Mas temos que o aceitar como condição sine qua non deste tipo de filmes. Quem vê ‘The Imitation Game’ também fica com a impressão que foi Alan Turing que venceu Guerra sozinho…

No fundo, acho que ‘The King’s Speech’ não sabe bem o que quer ser, para além de um inspirador filme-Óscar. É sobre a luta interna de um homem com um problema de fala? É sobre a relação de amizade entre dois homens? É sobre um período conturbado na história de um país e de um homem que, quase sem querer, se vê na liderança dos destinos da nação? Ou é sobre o próprio discurso, da história da sua concepção e da importância que teve, como outros discursos icónicos como o de Lincoln em Gettysburg, o “I Have a Dream” de Martin Luther King, ou o próprio “We Will Never Surrender” de Churchill que ainda teve recentemente um subtil destaque no final de ‘Dunkirk’ (2017)? Qualquer um destes tópicos daria um filme consistente, mas este filme oscila instavelmente entre eles. Provavelmente porque sabe que suster-se no gaguejo não seria suficiente. Mas como não se decide, no final não há realmente um fio condutor sólido que seja apelativo e profundo.

Mas é curioso notar (ou não) que isso pouco interessa ao filme. Como não interessam as notórias liberdades poéticas tomadas nos diálogos entre Lionel e Albert. Passou-se assim? Claro que não. Mas a ilusão do romance histórico e do glamour lustroso destas personagens é assim mantida com um enorme sucesso (como aliás os prémios que recebeu comprovam). Tudo o que interessa é que esta “celebridade” obtenha o que quer, para que o filme possa vendê-lo como uma história de coragem com uma dúbia moral semi-inspiradora. Tudo o que interessa é que hajam ridículos apartes só para o espectador se poder sentir dentro da piada e em cumplicidade com o filme (como por exemplo a insistência em mostrar a pequena filha do Rei, a futura Rainha Isabel II). 

"A sua ambição leva-o a entrar por um caminho de lugares comuns e incongruências que o crítico experienciado abomina. Simplesmente não tem arcaboiço para tornar esta sua pequena historieta num elemento fulcral do drama político. Simplesmente, já vimos esta história não sei quantas vezes antes (...) Assim se transforma uma obra com uma visível qualidade técnica e argumental numa telenovela morna, enfadonha e previsível"

Na minha opinião ‘The King’s Speech’ teria ganho com uma abordagem muito mais simples. Ganho credibilidade, isto é, não prémios. Este pequeno aparte da história britânica podia ter gerado um filme engraçadito que brincasse com as convenções, mas fosse consciente da sua pouca importância. Podia estar aqui um triunfo como ‘The Madness of King George’ (1994). Mas ‘The King’s Speech’ não quer ser uma comédia de costumes, quer ser um filme-Óscar, e esta sua ambição leva-o a entrar por um caminho de lugares comuns e incongruências que o crítico experienciado abomina. Simplesmente o filme não tem arcaboiço para tornar esta sua pequena historieta num elemento fulcral do drama político, como ambiciona. Simplesmente, já vimos esta história não sei quantas vezes antes com um desportista, um deficiente, um escritor, um pintor ou um político. Assim se transforma uma obra com uma visível qualidade técnica e argumental numa telenovela morna, enfadonha e previsível; uma nota de rodapé que se esquece ainda os créditos finais não chegaram ao fim.

Inspira? Talvez, se acharmos inspirador ver um rei a lutar para ultrapassar um trauma de infância só para fazer boa figura em público, sem interesse por nada ou mais ninguém senão isso (mesmo!). Óscar de Melhor Filme? Claro que não. É uma aceitável telenovela histórica da BBC que resultaria muito melhor como telefilme, boa para ver num sábado à tarde sentado no sofá. Não merece nada estar na mesma lista que ‘Lawrence of Arabia’, ‘Gone With the Wind’ ou ‘Schindler’s List’. Mas para mal dos nossos pecados, sempre estará. Para sempre uma marca dos mecanismos de marketing e aceitação pública que agora movem os Óscares, longe, bem longe, do premiar da excelência no qual se fundou a cerimónia. 

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Miguel. Portuense. Nasceu quando era novo e isso só lhe fez bem aos ossos. Agora, com 31 anos, ainda está para as curvas. O primeiro filme que viu no cinema foi A Pequena Sereia, quando tinha 5 anos, o que explica muita coisa. Desde aí, olhou sempre para trás e a história do cinema tornou-se a sua história. Pode ser que um dia consiga fazer disto vida, mas até lá, está aqui para se divertir, e partilhar com o insuspeito leitor aquilo que sente e é, quando vê Cinema.

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