Home » , » Grandes compositores. Grandes realizadores. Grandes bandas sonoras. Grandes filmes. – Maurice Jarre e David Lean

Grandes compositores. Grandes realizadores. Grandes bandas sonoras. Grandes filmes. – Maurice Jarre e David Lean


Há uns dias na crónica ‘Grandes compositores. Grandes realizadores. Grandes bandas sonoras. Grandes filmes – introdução a um ciclo de crónicas musicais’ discursei com paixão sobre a mais mágica de todas as colaborações (pelo menos para mim) que podem ocorrer em redor de um filme e da vastíssima gama de profissionais de todos os géneros e feitios que nele trabalham: a união entre um grande realizador e um grande compositor. Nessa crónica, prometi começar a publicar regularmente histórias, músicas e memórias sobre aquelas que considero ser, neste domínio, as melhores parcerias da história da sétima arte. Pois bem, como eu cumpro sempre o que prometo, mesmo que seja com alguns dias de atraso, aqui fica a primeira destas crónicas musicais.

Decidi começar com uma colaboração que, em termos numéricos, empalidece comparada com outras, já que existiu em apenas quatro filmes. Mas que filmes! E que bandas sonoras! Na realidade, nunca uma colaboração tão passageira foi tão frutífera, em termos de reconhecimento crítico e permanência no imaginário colectivo dos cinéfilos, do que esta entre o mítico realizador inglês David Lean e o músico francês Maurice Jarre. De facto, os quatro filmes em que colaboraram venceram um total de dezassete Óscares, dos quais três, para Melhor Banda Sonora Original, foram parar direitinhos à estante de Maurice Jarre. Um feito notável.

Primeira colaboração: 'Lawrence of Arabia' (1962)


A primeira vez que Maurice Jarre e David Lean trabalharam juntos foi em ‘Lawrence of Arabia’, que venceu sete Óscares em 1962. Por essa altura David Lean era para o mundo principalmente o homem que havia dirigido ‘The Bridge of the River Kwai’, o seu filme anterior, que havia vencido outros sete Óscares em 1957, incluindo Melhor Filme e Melhor Realizador. Mas Lean tinha já uma carreira de quase duas décadas como um dos mais importantes realizadores romântico-dramáticos do Reino Unido, com íntimas e profundas obras como ‘Brief Encounter’ (1945), ‘Oliver Twist’ (1948) ou o sublime ‘Hobson’s Choice’ (1954). Em ‘The Bridge of the River Kwai’, Lean acrescentou à trabalhada intimidade que caracterizava os seus filmes uma componente de epicidade visual, expandindo a sua arte para os grandes espaços abertos e as grandes localizações à volta do mundo. Se em ‘The Bridge of the River Kwai’ Lean captou como ninguém o ambiente vivido na Segunda Guerra Mundial nas florestas asiáticas, em ‘Lawrence of Arabia’ filmou o deserto como nunca ninguém o tinha filmado anteriormente.

Mas o deserto é um lugar isolado sem grandes sonoridades ambiente. Era preciso um compositor que conseguisse conceber um tema que fizesse jus à sua vastidão melancólica, mas também ao multifacetado Lawrence de Peter O’Toole. Foi o produtor Sam Spiegel que sugeriu a David Lean o nome de Maurice Jarre. Um prodígio da música francesa, Jarre havia começado a compor para o teatro no início da década de 1950 e depois, naturalmente, fez o salto para o cinema francês pela mão do realizador Georges Franju, compondo para filmes como ‘La tête contre les murs’ (1959) ou ‘Les yeux sans visage’ (1960), uma banda sonora que muito terá impressionado Spiegel. Inicialmente, e tendo em conta a dimensão de ‘Lawrence of Arabia’, três compositores foram contratados para escrever a música para secções distintas do filme, mas por qualquer motivo, Jarre acabou por assumir a escrita completa da partitura. Seria um decisivo ponto de viragem na sua carreira e também na arte da banda sonora instrumental.

O resultado foi uma união perfeita de som e imagem. As composições de Jarre ajustaram-se como uma luva na sumptuosidade visual de Lean, e o tema principal de 'Lawrence of Arabia' tornou-se para sempre associado à imagem de um deserto. É um tema ao mesmo tempo majestoso e íntimo, tal como o filme, e a banda sonora mistura sons tribais (notavelmente através de citaras) com melodias sinfónicas firmando o elo entre a paisagem, o homem, e a glória algo despreocupada e decadente do país colonizador que esse homem representava. Com ‘Lawrence of Arabia’, Lean repetiu o Óscar de Melhor Filme e de Melhor Realizador, e Jarre venceu sem surpresa o seu primeiro Óscar de Melhor Banda Sonora. Mas era apenas o princípio.



Segunda colaboração: ‘Doctor Zhivago’ (1965)


Três anos depois, Lean regressou com mais uma impressionante obra, desta vez trocando as paisagens do deserto do Norte de África pelas vastidões gélidas da Rússia, na adaptação do bestseller de Boris Pasternak, ‘Doctor Zhivago’ (1965). Mais um triunfo cinematográfico, ‘Doctor Zhivago’ volta a contar uma história íntima com uma impressionante mestria técnica e ao fazê-lo e volta a redefinir o conceito de ‘épico’. Mas um dos elementos mais memoráveis de ‘Doctor Zhivago’ é sem dúvida alguma a sua banda sonora, de novo a cargo de Jarre.

Tal como em ‘Lawrence of Arabia’, Jarre completa uma belíssima banda sonora sinfónica com sons locais, sejam as canções de ordem nacionalista ou acordes mais tradicionais, neste caso provenientes das famosas balalaicas, que atingiram um novo pico de popularidade depois do lançamento do filme. De facto, o tema principal, o imediatamente reconhecível ‘Lara’s Theme’, escrito em homenagem à personagem de Julie Christie, e símbolo do amor entre esta e Zhivago, tornou-se uma das músicas mais populares da década de 1960, quer em formato instrumental, quer em formato cantado. A versão cantada com uma letra escrita por Paul Francis Webster foi um dos singles de maior sucesso desta era e gerou inúmeras versões em inúmeras línguas. Mas é também verdade que o filme depende muito musicalmente de ‘Lara’s Theme’. Alguns temas compostos por Jarre para cenas específicas foram simplesmente substituídos, durante o processo de montagem, por variantes de ‘Lara’s Theme’, algo que, segundo se diz, enfureceu o compositor. Isso não o impediu contudo de continuar a trabalhar com Lean por mais duas vezes.

Apesar de ‘Doctor Zhivago’ ter perdido o Óscar de Melhor Filme e Melhor Realizador para ‘The Sound of Music’, ninguém ia tirar o segundo Óscar a Maurice Jarre. Para além desse prémio, quer Jarre quer Lean venceram Globos de Ouro nas respectivas categorias, e Jarre ainda ganhou um Grammy. A banda sonora de ‘Doctor Zhivago’, e principalmente ‘Lara’s Theme’, estão ainda hoje fortemente associadas à Rússia, a paisagens gélidas e ao romance. Pura e simplesmente é uma grande banda sonora que dá ainda mais dimensão a um grande filme. Vinte anos mais tarde, em 1988, ‘Lara’s Theme’ venceria um People’s Choice Award na categoria Favorite All-Time Motion Picture Song. É mais uma prova da sua imortalidade.



Terceira Colaboração: ‘Ryan’s Daughter’ (1970)


Depois do sucesso de ‘Doctor Zhivago’ Lean, então já com 57 anos, esperou cinco anos para realizar o seu próximo filme. ‘Ryan’s Daughter’ (1970) é de novo um massivo épico, mas já não tem a mesma chama dos três filmes anteriores de Lean. O seu enquadramento cénico numa pequena aldeia irlandesa, apesar de belíssimo, é muito mais contido; e a dimensão do seu drama (ou quase melodrama) é muito menos expansivo e muito mais ponderado. Lean deleita-se com a sua própria mestria visual (que é soberba) enquanto a história, uma re-imaginação de ‘Madame Bovary’, avança a um ritmo tão moroso que se torna praticamente impossível de suportar.

Portanto não é de espantar que a banda sonora de Maurice Jarre seja igualmente menos épica e menos sumptuosa. O delicado tema de ‘Ryan’s Daughter’ enrola-se no ouvido como as ondas do mar que embalam a pequena aldeia, uma valsa delicada e nostálgica com toques de comicidade para representar a personagem do bobo através do qual a história é parcialmente contada (o fantástico John Mills que venceu por esse papel o Óscar de Melhor Actor Secundário). Já Maurice Jarre nem sequer foi nomeado para o Óscar, apesar de ter sido nomeado para um Grammy. É verdade que a banda sonora fica menos no ouvido que a de ‘Lawrence of Arabia’ e ‘Doctor Zhivago’, mas é talvez a mais multifacetada, já que oscila entre o romântico, a bravura emocional e a leveza, uma oscilação que resulta melhor na música do que propriamente no filme.

O estrondoso fiasco crítico e comercial de ‘Ryan’s Daughter’ foi talvez um golpe demasiado duro para o génio cinematográfico que era David Lean. ‘Ryan’s Daughter’ é mais um filme de cinéfilos do que de grandes públicos, mas mesmo assim foi injusto todo o ataque de que foi vítima. Lean ficou tão sentido pela má recepção do filme que decidiu retirar-se do mundo do cinema, aos 63 anos de idade. Foi o cinema que ficou a perder. Mas nunca se deve dizer nunca.



Quarta colaboração: 'A Passage to India' (1984)


Deve ter havido qualquer coisa especial em 1984. Sim, claro, foi o ano em que eu nasci, mas foi também o ano em que dois grandes mestres do cinema decidiram realizar uma derradeira obra depois de mais uma década de ausência (obrigado, não era preciso tanto para celebrar o meu nascimento!). Sergio Leone realizou ‘Once Upon a Time in America’ treze anos depois de ‘Giù la testa’ (1971) e David Lean voltou catorze anos depois com ‘A Passage to India’.

‘A Passage to India’ não é propriamente o melhor filme de Lean, e peca por ter alguma da mesma morosidade de ‘Ryan’s Daughter’, mas é um filme que trouxe, para o meio de uma década que estava a produzir em massa filmes de acção, filmes de ficção científica e filmes de adolescentes, o melhor do majestoso cinema épico que este realizador inglês podia oferecer. O cinema das grandes e exóticas localizações (neste caso a Índia ocupada pelos ingleses); do (melo)drama íntimo no meio do épico; de sublimes interpretações (incluindo Alec Guiness ou Peggy Ashcroft que venceu o Óscar de Melhor Actriz Secundária, apesar de notoriamente Lean não se dar bem nas filmagens com nenhum dos seus actores principais); e de um realizador que apesar destes incidentes ainda dominava por completo a sua arte. E claro, unindo todos estes elementos, estava mais uma grande banda sonora de Maurice Jarre.

Na sua última colaboração com Lean, Jarre venceria o terceiro e último Óscar de Melhor Banda Sonora da sua carreira. Nos anos de permeio, havia começado a trabalhar com mais afinco para os estúdios americanos e as grandes produções internacionais, compondo memoráveis bandas sonoras como aquelas para 'The Man Who Would Be King' (1975), 'Jesus of Nazareth' (1977) ou 'The Year of Living Dangerously' (1982), a sua primeira composição inteiramente electrónica, um género do qual se tornaria pioneiro (e do qual o seu filho Jean Michel Jarre seria um dos maiores expoentes mundiais). Mas para Lean e ‘A Passage to India’ Jarre mantém-se no tradicional estilo sinfónico que tão bem já havia servido este estilo de produções anteriormente. O tema principal do filme é uma ode sinfónica no grande estilo que Jarre tinha imortalizado em ‘Lawrence of Arabia’ e ‘Doctor Zhivago’, simbolizando o exotismo da Índia, mas também, tal como no caso de ‘Lawrence of Arabia’, a nostalgia por um época áurea mas ilusória de colonialismo decadente. A fanfarra semi-militar que complementa o tema principal é o reflexo da vã glória do Império Britânico, e é curiosíssimo que tenha sido um francês a captar tão bem a essência dos seus eternos rivais do outro lado da Mancha.

Mesmo assim, dos três Óscares que Jarre recebeu em filmes de Lean, este é aquele que é talvez o menos merecido, e também o mais surpreendente. Visto que nesse ano de 'Amadeus', 'A Passage to India' só venceu duas das onze nomeações para os Óscares (justíssimo já que 'Amadeus' é uma obra prima muito maior), não estaria a Academia a tentar compensar o legado de Lean, e particularmente o bem-amado legado da sua parceria com Jarre? Parece provável. Parece muito provável e o justo tributo ao final desta sua mítica colaboração.



Depois de 'A Passage to India', Lean não faria outro filme. Em 1990 receberia o prémio carreira do AFI e viria a falecer no ano seguinte aos 83 anos de idade. Já Jarre faleceria apenas em 2009, e até 2000, o ano em que compôs a sua última banda sonora, continuou a fazer história com as suas composições para filmes como 'Witness' (1985), 'Fatal Attraction' (1987), 'Dead Poets Society' (1989) ou 'Ghost' (1990). Mas nunca foi tão musicalmente sublime como foi para David Lean nestes quatro filmes. Quatro épicas obras de cinema. Quatro épicas, emotivas e apaixonantes bandas sonoras. Não foi a colaboração entre um realizador e um compositor mais extensa da história do cinema. Mas foi sem dúvida uma das mais memoráveis, não só pelo impacto que estas bandas sonoras tiveram nos próprios filmes, como no imaginário colectivo. Um ou dois acordes reconhecemos imediatamente o tema de 'Lawrence of Arabia' e sentimos os pés a enterrar na areia do deserto. Um e dois acordes e reconhecemos imediatamente 'Lara's Theme' e sentimos os flocos de neve a cair. Um ou dois acordes e recordamos o que é o verdadeiro cinema.

Como não podia deixar de ser a parceria Jarre-Lean é parte integrante da minha estante. Para além de ter os quatro filmes (dois em blu-ray, dois em DVD), possuo as bandas sonoras originais de 'Lawrence of Arabia' (uma nova gravação pela The Philarmonia Orchestra) e de 'Doctor Zhivago' (a edição do TCM do 30º aniversário), bem como a colectânea da Silva Screen Records 'The Essential Maurice Jarre' que entre outros temas possui obviamente Suites destes quatro filmes. Deleite para os meus olhos e música para os meus ouvidos. Agora é consigo, caro leitor, (re)descobrir este grande legado.

0 comentários:

Enviar um comentário

Porque todos somos cinema, está na altura de dizer o que vos vai na gana (mas com jeitinho).

Vídeo do dia

Citação do dia

Top 10 Posts mais lidos de sempre

Com tecnologia do Blogger.

Read in your language

No facebook

Mais lido da semana

The Guns of Navarone

Ano: 1961 Realizador:  J. Lee Thompson Actores principais:  David Niven, Gregory Peck, Anthony Quinn Duração: 158 min Crítica: ...

Quem escreve

Quem escreve
Miguel. Portuense. Nasceu quando era novo e isso só lhe fez bem aos ossos. Agora, com 31 anos, ainda está para as curvas. O primeiro filme que viu no cinema foi A Pequena Sereia, quando tinha 5 anos, o que explica muita coisa. Desde aí, olhou sempre para trás e a história do cinema tornou-se a sua história. Pode ser que um dia consiga fazer disto vida, mas até lá, está aqui para se divertir, e partilhar com o insuspeito leitor aquilo que sente e é, quando vê Cinema.

Visualizações

Seguidores Blogger

Seguidores Google+

 
Copyright © 2015 Eu Sou Cinema. Blogger Templates