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Histoires(s) du cinema: ‘Tango & Cash’ (1989); ou o filme n° 1 da minha colecção pessoal

Toda a gente que me conhece pessoalmente e que já foi ao meu humilde lar sabe que tenho muitos filmes na estante. Muitos mesmo. Mesmo, mesmo muitos. Entre todas as formas legais de deter filmes em casa, nomeadamente VHSs e DVDs gravados a partir de canais de televisão, e VHSs, DVDs e Blu-rays originais (só não tenho betas – era muito novo – laserdiscs – nunca acreditei que fossem pegar – nem Blu-rays 4K – para mim o Blu-ray já chega perfeitamente) tenho largas (mas mesmo largas) centenas de títulos.

Sim, eu sei. Primeiro foi um vício gravar mais e mais. Depois, mais velho, tornou-se um vício comprar mais e mais, um vício que só os verdadeiros cinéfilos compreenderão. Mas é um vício saudável e enriquecedor (quer em termos de entretenimento, quer em termos culturais) e que, ao contrário do que muitos pensam, nunca foi, nem continua a ser, muito caro. As ditas "cassetes virgens" eram baratas e as de quatro horas podiam conter dois filmes. E só os filmes recentes, ou as edições recentes de filmes clássicos, surgem nas lojas a preços proibitivos (e proibitivo, para mim neste momento, é qualquer coisa acima de 8 ou 10 euros). Mas é só ter paciência para esperar, estar atento às promoções, e visitar com alguma regularidade algumas lojas que literalmente despejam edições antigas, que “não vendem”, no mercado a preços irrisórios (hipermercados por exemplo), para poder alimentar o hábito de compra regular, manter a estante cheia com obras de qualidade e mesmo assim não esvaziar a carteira. Dou-vos um exemplo. Uma vez comprei a trilogia das cores de Krzysztof Kieslowski numa loja de tecnologia portuguesa, completamente novo, selado com o plástico de origem, por 1 euro. Assim vale a pena, não?


Ora, como sou um rapaz bem organizadinho, tenho todas estas largas centenas de obras devidamente catalogadas. Foi uma prática que comecei na pré-adolescência e ainda hoje mantenho. Cada entrada da base de dados Excel contém o nome e o ano do filme, o realizador e o formato no qual o possuo. Mais tarde adicionei uma última coluna de “críticas”, que inclui todas as já publicadas neste blog, mas também todas as notas que rabisco sempre que acabo de ver um filme (algo que comecei a fazer em 2012). Mas, como em todas as listas, tem que haver um número 1. E esse número 1 da lista oficial da minha colecção pessoal é a comédia de acção policial de Andrey Konchalovskiy: ‘Tango & Cash’ (1989).

‘Tango & Cash’ está longe de ser o primeiro filme que detive no formato ‘home cinema’. De facto, comecei a minha colecção um ano antes deste filme fazer parte dela, quando tinha 10 anos de idade. Corria o ano de 1995. Nessa altura, os meus avós começaram-me a oferecer, em intervalos regulares (e se a memória não me falha, sempre aos domingos, nos nossos almoços de família) VHSs de obras destinadas ao público mais jovem. Estes meus primeiros VHSs, que ainda hoje a minha estante exibe com orgulho (e, diga-se, ainda funcionam perfeitamente) são praticamente todos de filmes dos dois anos anteriores: ‘Dennis the Menace’ (1993), ‘The Secret Garden’ (1993), ‘Richie Rich’ (1994), ‘Iron Will’ (1994), ‘The Flinstones’ (1994) ou ‘The Mask’ (1994). Mas nenhum deles é o primeiro da minha lista, apesar de um deles ter sido certamente o primeiro filme a “pertencer-me”. E eu creio saber porquê; por uma questão de orgulho e satisfação pessoal. Passo a explicar.

Por esta altura, as minhas primeiras aventuras cinematográficas em casa eram promovidas pelo meu irmão mais velho. O meu irmão via os filmes na televisão e eu, claro, macaquinho de imitação, via com ele. Mais tarde, a nossa tia ensinou-nos (ou ensinou-o a ele, que era o mais velho) a gravar um filme que estava a passar na TV nos tais VHSs virgens. Nesses anos gloriosos das matinés dos canais portugueses (que falta não fazem elas hoje!) gravamos para ver e rever (e rever, e rever, e rever…) obras como por exemplo as trilogias ‘Star Wars’, ‘Indiana Jones’ ou ‘Back to the Future’. Ainda me lembro quando percorríamos as páginas da revista TV Guia (a antiga, não o antro de fofoquice que é hoje) para assinalar os filmes que os canais portugueses iriam dar, lendo os resumos para decidir os que mais valiam a pena gravar. É sempre bom recordar que cresci sem internet e praticamente sem canais por cabo. A nossa oferta era limitada, mas a nossa vontade de descoberta era enorme. E assim tínhamos merecidas recompensas pela nossa paciência e dedicação, algo que os miúdos de hoje, nesta sociedade “instantânea”, mais dificilmente alcançam.


Mas (um grande “mas” com que todos os irmãos mais novos se identificarão), como o meu irmão era o mais velho, ele é que ficava com esses VHSs que gravávamos e víamos uma e outra vez em tardes despreocupadas. Sempre que gravávamos um filme em conjunto, e depois de o ver decidíamos não "desgravar" (ou seja, não gravar outro filme por cima), era para o quarto do meu irmão que a cassete rumava. Porquê? Porque ele era o mais velho. E sempre que alguém oferecia um VHS original “aos dois”, rumava exactamente para o mesmo local. Porquê? Porque ele era o mais velho!

Isto realmente nunca me incomodou até chegar aos 10 anos de idade quando, cortesia dos meus avós, passei a ser detentor dos meus próprios filmes e a iniciar a minha própria colecção. Precocemente, comecei a pensar no dia mais tarde em que iria morar sozinho e iria deixar de ter acesso directo àqueles filmes que eram “nossos” mas que na realidade não eram “meus”. É verdade que nunca repeti, ou seja nunca comprei ou gravei da televisão um filme que o meu irmão tinha no quarto dele até sair de casa dos meus pais, quinze anos depois. Mas foi nesse momento que a semente se plantou na minha cabeça. Por outro lado, como éramos (e somos) duas pessoas diferentes, tínhamos naturalmente gostos diferentes. Até essa altura eu sujeitava-me aos gostos do meu irmão. A partir dessa idade, e impulsionado por me terem oferecido o meu próprio videogravador, decidi que já era mais do que hora de começar a gravar os meus próprios filmes. 

Freneticamente, peguei na TV Guia para saber o que iria dar nos dias seguintes. Mas não foi aí que descobri o que pretendia. Foi no canal Hollywood, então na sua versão primordial, e num anúncio em particular, que me chamou à atenção pelo seu misto de explosividade e comédia. Corria o Verão de 1996. Tinha 11 anos de idade. E o anúncio era ao filme ‘Tango & Cash’ que vejo agora que em Portugal teve o certificado de "maiores de 16 anos". São os riscos de deixar um rapaz de 11 anos ter uma televisão e um videogravador no quarto, não são? Bem, não me fiz rogado e pus as mãos à obra. Estaria na escola à hora de exibição pelo que, guiado pelo manual do meu videogravador, utilizei a mítica “gravação temporizada” para obter o que queria. Depois havia sempre aquela excitaçãozinha nervosa para saber se o filme tinha ficado bem gravado do início ao fim. Em canais portugueses como a RTP havia sempre esse risco acrescido, porque os horários nunca eram cumpridos e havia sempre anúncios pelo meio. Mas no Canal Hollywood não havia esse risco. O filme, para muita alegria minha, ficou bem gravado. Os dados estavam lançados.


Neste preciso momento que escrevo estas linhas, tenho esse VHS na mão. Um VHS de 3 horas da marca Kodak com 21 anos de idade (!!!). As gastas letrinhas toscas na lombada dizem-me que antes do filme está ainda gravada a cerimónia de abertura do Europeu de Futebol desse mesmo ano de 1996, o meu primeiro grande teste na gravação. Retiro o VHS e caem dois papéis, recortes de revista contendo as letras de duas canções então na moda (outrora a TV Guia trazia uma todas as semanas): "We’re in This Together" dos Simply Red (o hino do Euro96) e "Gangsta’s Paradise" do filme sensação do momento: ‘Dangerous Minds’ (1995). Incrível como preservei estes dois papéis todos estes anos.

Agora, tantos anos depois da última vez que o fiz, coloco o VHS no leitor, o meu fiel leitor Sony, que nunca se estragou, que nunca me deixou ficar mal. Faço fast forward para passar à frente a cerimónia de abertura do Euro. Apercebo-me de algo que obviamente não me recordava. Cortesia das vicissitudes da gravação temporizada, fiquei com o final de ‘The Karate Kid: Part II’ (1986) gravado. Apercebo-me também que nesta altura os anúncios do canal Hollywood eram ainda em espanhol! Agora começa o filme. A transmissão é ainda em 4:3 e portanto o filme está cortado (para não dizer dilacerado) através da técnica “pan-scan”. A imagem granulada que antes não estranhava parece agora pré-histórica para quem vê cinema e televisão em alta-definição todos os dias. A música electrónica da banda sonora é “so eighties”. E lá aparece Stallone no seu descapotável…

A única coisa que posso deduzir é que tive tanto orgulho neste meu feito que quando, uns tempos depois, comecei a catalogar os meus filmes (então apenas numa folha de papel), decidi dar a posteridade do primeiro lugar a ‘Tango & Cash’. Tinha uns vinte VHSs originais que haviam chegado às estantes do meu quarto pelo menos um ano antes. Mas nenhum deles tinha sido por meu intermédio directo. Este tinha. E aí estava a diferença. Coisas de miúdo. Inocente orgulho egocêntrico, tão egocêntrico como pode ser um pré-adolescente, mas não pedante. Foi uma “cena” bem-intencionada, de mim para comigo. Uma prova do meu valor.


Seguiu-se ‘The Wizard of Oz’ que gravei no canal TCM. E depois seguiram-se tantos outros ao longo da década seguinte, até os DVDs entrarem no mercado e tornarem definitivamente obsoletos os VHSs. Embora tenha deitado fora alguns destes VHSs gravados quando comprei os DVDs ou Blu-rays dos respectivos filmes, detenho ainda quase 300 filmes neste formato. Uma pequena mas importante parcela da minha biblioteca; uma parcela da qual não irei abdicar tão cedo ou talvez nunca. Como provei ainda hoje mesmo, o VHS ainda funciona perfeitamente. Apesar das falhas do formato (principalmente o “pan-scan”) respeito-o muito. Afinal, foi através dele que descobri o cinema. E foi dessa semente que a minha gigantesca biblioteca pessoal nasceu.

Portanto, a memória do número 1 permanece e continuará a permanecer. Vi e revi este VHS, vi e revi ‘Tango & Cash’ muitas vezes na adolescência, mas creio que já não o devo ver há uma boa década. Provavelmente, há mais tempo do que isso. Mas tanto quanto me recordo era um filme de acção divertido e dinâmico, um típico produto dos anos 1980, que conseguia balançar uma sólida veia de entretenimento com uma excitação desmesurada e explosiva. Tanto quanto me recordo a química entre Stallone e Russell resultava bem, Jack Palance era um excelente vilão e Teri Hatcher (que para mim na altura era a Penny Parker de ‘MacGyver’) era um apelativo eye-candy. Acho que depois desta "trip down memory lane", rever ‘Tango & Cash’ de repente passou a fazer seriamente parte dos meus planos para um futuro próximo. Dizem que a primeira vez fica para sempre. Neste meu caso, também é verdade. Obrigado Tango. Obrigado Cash. Obrigado videogravadores. São estas memórias que formam um cinéfilo. 

Esta é a minha histoire du cinema sobre ‘Tango & Cash’ e a minha iniciação na gravação de VHSs. Qual é a sua, caro leitor?

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Miguel. Portuense. Nasceu quando era novo e isso só lhe fez bem aos ossos. Agora, com 31 anos, ainda está para as curvas. O primeiro filme que viu no cinema foi A Pequena Sereia, quando tinha 5 anos, o que explica muita coisa. Desde aí, olhou sempre para trás e a história do cinema tornou-se a sua história. Pode ser que um dia consiga fazer disto vida, mas até lá, está aqui para se divertir, e partilhar com o insuspeito leitor aquilo que sente e é, quando vê Cinema.

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