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Cinco cenas, cinco paródias ao final de 'Casablanca'


'Casablanca'. O mítico filme de 1942, realizado por Michael Curtiz e com Humphrey Bogart e Ingrid Bergman nos papéis principais. 'Casablanca'. Para muitos, o melhor filme de sempre, ou pelo menos um dos melhores. Para mim, não o melhor filme de sempre, mas definitivamente entre os melhores. O poster de 'Casablanca' ornamenta a minha sala de estar. Na estante tenho o VHS (gravado há décadas do canal TCM), o DVD (que a minha esposa possuía já antes de a conhecer) e o Blu-ray (que havia comprado para substituir o VHS). 'Casablanca'. Uma obra de cinema verdadeiro. Uma obra para a eternidade.

De entre a perfeição que 'Casablanca' é (e podíamos ficar aqui até à próxima semana a discuti-lo) a cena final é, consensualmente, a mais perfeita de todas. Rick (Bogart), Ilsa (Bergman), Laszlo (Paul Henreid) e o Capitão Renault (Claude Rains) chegam ao aeroporto de Casablanca num automóvel. Rick coordena as operações e mantém o Capitão Renault sob a mira da sua arma escondida. Ilsa acha que vai ficar junto de Rick. Laszlo acha que vai embarcar num avião para Lisboa com Ilsa. E tem razão, porque após um discurso inspiracional com algumas das frases mais citáveis da história do cinema ("We'll always have Paris", "The problems of three little people don't amount to a hill of beans in this crazy world"; "Here's looking at you kid") Rick convence Ilsa que o lugar dela é no avião, com Laszlo. E quando o avião parte, Rick e o Capitão rumam ao horizonte, ou pelo menos à saída do aeroporto, ao som do hino francês e da frase "Louis, I think this is the beginning of a beautiful friendship.". Perfeito. Mas não é preciso descrevê-la. O leitor provavelmente já a viu umas boas dezenas de vezes. Recorde-a em 6 sublimes minutos no Youtube, em duas partes (não consegui arranjar melhor!)



Obviamente, uma cena tão icónica de um filme tão imortal está perfeitamente madura para a paródia. Ao longo das décadas, como não podia deixar de ser, homenagear 'Casablanca' foi também brincar com os seus momentos mais memoráveis; esses que, por serem tantas vezes repetidos e citados se tornaram praticamente um lugar comum. Pessoalmente, detesto a comédia ofensiva baseada em estereótipos, como por exemplo sketches de humor sobre celebridades. É fácil fazer rir gozando com as idiossincrasias dos outros, seja uma pessoa ou também um filme. Mas nem todas as paródias jogam baixo, e essas é que são as melhores. Não é obrigatório que uma grande homenagem seja séria. Pode perfeitamente ser cómica. O que é importante é que seja respeitosa e que referencie o filme original com afecto. Se o fizer, então não só fará sorrir mais, e durante mais tempo, como se torna muito mais poderosa.

Seguem-se cinco momentos da história do cinema e da televisão em que isso realmente aconteceu relativamente à cena final de 'Casablanca'. Cinco cartas de amor a este grande filme. Cinco momentos, não tão memoráveis, mas que merecem também, por mérito próprio, não ser esquecidos.



5 - The Simpsons (Temporada 9, Episódio 25: Natural Born Kissers) (1998)

Os Simpsons, que atacaram com humor inteligente (pelo menos nas primeiras temporadas) todas as convenções da nossa sociedade, demoraram nove temporadas a chegar a 'Casablanca'. Mas inevitavelmente chegaram lá. No último episódio da temporada 9, Bart e Lisa visitam o seu avô no lar de idosos de Springfield. Bart encontra um detector de metais e começa a usá-lo, para procurar um tesouro. O que encontra é uma bobina com o final alternativo de 'Casablanca', pertencente a um dos idosos, outrora um produtor da Warner Brothers. Com a típica exuberância dos Simpsons, descobrimos que afinal a amizade entre Louis e Rick não é assim tão grande, Hitler anda escondido por Casablanca e que Elsa decide voltar para Rick, saltando do avião com um para-quedas. Afinal, era este o final com que muitos espectadores haviam sonhado, não? Os Simpsons voltam a acertar na muche, embora não tenham sido os primeiros a fazê-lo (ver nº 3).



4 - Saturday Night Live (2015)

Num episódio de 2015, os comediantes americanos do 'Saturday Night Live', conhecidos há décadas pelas suas paródias a figuras públicas, também fizeram questão de encontrar, tal como os Simpsons, uma bobina perdida com um final alternativo de 'Casablanca'. O resultado foi um sucesso nos media e nas redes sociais mas eu, pessoalmente, não fiquei totalmente convencido. J.K. Simmons, o anfitrião convidado da noite, interpreta Rick, mas não se afasta muito da sua maneira acelerada de falar, tão contrária à de Bogart, e portanto não seduz muito o espectador. Já a cómica residente Kate McKinnon é outra história. No início exagera claramente no tom da paródia (também ela tão diferente da tímida e delicada Bergman), mas depois, quando Simmons começa a fazer o monólogo de Bogart, McKinnon entra numa espiral hilariante que desconstrói o mito das icónicas frases finais de 'Casablanca', salientando a fina linha entre o inspiracional melodramático e o grande cinema. Simples, mas eficaz. Contudo esta abordagem cómica não parece ser totalmente original, algo que ninguém salientou, provavelmente por desconhecimento. A série 'Moonlighting', num episódio de 1988, havia-o feito precisamente nestes moldes (ver nº 2).



3 - Carrotblanca (1995)

'Carrotblanca', pelo seu estilo e argumento, parece uma curta metragem feita nos anos 1950. Mas não foi. Este Looney Toons tardio foi realizado em 1995 e foi lançado nos cinemas juntamente com os filmes 'The Amazing Panda Adventure' (nos Estados Unidos) e 'The Pebble and the Penguin' (no resto do Mundo). Desde então, tem sido presença regular, como extra, nos DVDs e Blu-rays de 'Casablanca'. A história da curta-metragem vai parodiando a de 'Casablanca' com Bugs Bunny como Rick, Daffy Duck como Sam, Pepé Le Pew como Captain Renault, Sylvester como Lazlo e Penelope Pussycat como Ilsa. As cenas estão todas bem construídas mas o destaque tem de ser dado, precisamente, à última. A passo hilariante e irreverente, como só os Looney Toons conseguem, o final de 'Carrotblanca' oferece um twist que repõe alguma "justiça" na lenda de 'Casablanca' e no desejo dos milhares de fãs que sonhavam com um final em que Ilsa e Rick acabassem juntos. É preciso recordar que os gatos aterram sempre de pé! "Here's looking for you, kid!".



2 - Moonlighting (Temporada 4, Episódio 13: Here's Living with You Kid) (1988)

'Moonlighting' (em português 'Modelo e Detective') foi uma das séries de maior sucesso nos anos 1980, e é uma das séries da minha infância que recentemente tenho andado a rever. Conta as aventuras e desventuras dos detectives David (Bruce Willis) e Maddie (Cybill Shepherd) com um ritmo recordando a comédia screwball da Hollywood clássica e, portanto, vai tendo inúmeras referências aos standards dessa era. Há quarta temporada, Willis e Shepherd já não se podiam ver, quer dentro quer fora do ecrã, por isso a série entrou na sua pior fase, esquecendo os casos policiais para se tornar mais próximo de uma telenovela, e até tendo alguns episódios em que os seus dois actores principais não entram. Nestes episódios "para encher", os actores secundários Allyce Beasley (a secretária da agência Agnes DiPesto) e o genial Curtis Armstrong como o investigador Herbert Viola assumiram as despesas da série.

O melhor desses episódios é o 13º da quarta temporada, onde Viola re-imagina na sua cabeça praticamente 'Casablanca' inteiro, consigo próprio como Rick, Agnes como Ilsa e o seu eterno rival no escritório MacGillicudy (o actor Jack Blessing) como Laszlo. Na cena final (começa por volta dos 24 min de episódio), Armstrong oferece uma das melhores paródias de sempre a Bogart sem necessitar de imitar a sua voz ou o seu andar. Domina magistralmente o típico argumento acelerado da série, debitando frase atrás de frase que circundam o argumento de 'Casablanca' e o tornam ainda mais retorcido para efeitos cómicos. Frases que soam bem não são necessariamente coerentes, mesmo numa obra-prima como 'Casablanca'! E depois, há a reviravolta total, com a Ilsa de Agnes a tomar conta da situação enquanto Rick se afasta de ele próprio para se tornar... bem, Viola. Obviamente, a cena é muito mais engraçada para quem conhece esta série e estas personagens...



1 - 'Play It Again, Sam' (1972)

'Play It Again, Sam' (em português 'O Grande Conquistador'...) foi um filme crucial no início da carreira de Woody Allen. Apesar de não ter sido realizado por ele (o mestre do drama nostálgico Herbert Ross assumiu esse papel) é, para todos os efeitos, o seu primeiro grande filme dramático, já que é baseado na sua própria peça de teatro com o mesmo nome. Este filme marca também a sua primeira colaboração cinematográfica com Diane Keaton, que havia conhecido precisamente na produção da peça, quando ela bateu as outras candidatas para ficar com o papel de Linda. Nesta história Allen é um crítico de cinema obcecado por 'Casablanca' - tanto que até tem conversas com um Humphrey Bogart imaginário genialmente interpretado por Jerry Lacy - que após o divórcio entra numa clássica espiral depressiva. São Linda e Dick (Tony Roberts), um casal amigo, que o tentam ajudar a sair dela, mas no processo Allen apaixona-se por Linda.

Na realidade todo o filme tem apenas um único objectivo: encontrar uma maneira credível de recriar a última cena de 'Casablanca' no contexto da América de Allen dos anos 1970. E obviamente, como o génio cómico-dramático que é, Allen consegue tirar esse coelho da cartola. Linda, com um chapéu à Bergman, dirige-se para o avião e Allen vai atrás dela. É na pista que têm a sua conversa, com Linda dividida entre o marido e Allen. Quando hesita, Allen faz uma breve pausa e, com a névoa a passar, começa a recitar o discurso de Bogart. Quando Linda exclama "Que bonito!", Allen responde com um misto de alegria e tristeza "É do Casablanca. Esperei a vida toda para o dizer!". A marca do génio está na forma como se ajusta na perfeição ao filme, tal como se havia ajustado em 'Casablanca'. É a melhor homenagem que podia ter sido feita, por um génio cheio de amor cinematográfico. E é precisamente esse amor que redime a sua personagem. Linda não pode ser sua. Mas Allen já não tem medo do futuro.


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Miguel. Portuense. Nasceu quando era novo e isso só lhe fez bem aos ossos. Agora, com 31 anos, ainda está para as curvas. O primeiro filme que viu no cinema foi A Pequena Sereia, quando tinha 5 anos, o que explica muita coisa. Desde aí, olhou sempre para trás e a história do cinema tornou-se a sua história. Pode ser que um dia consiga fazer disto vida, mas até lá, está aqui para se divertir, e partilhar com o insuspeito leitor aquilo que sente e é, quando vê Cinema.

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