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The Man Who Haunted Himself

Ano: 1970

Realizador: Basil Dearden

Actores principais: Roger Moore, Hildegard Neil, Alastair Mackenzie

Duração: 89 min

Crítica: ‘The Man Who Haunted Himself’ (em português ostenta o título brilhante de ‘A Luta de um Homem’) é uma pérola escondida do cinema inglês pós swinging-sixties, que peca por ter um final de certo modo desapontante. Mas vamos por partes. Primeiro este é um filme que poucas ou nenhumas pessoas ouviram falar. Eu vi-o por um motivo muito simples. O actor principal é Roger Moore. Para além disso, o próprio refere-se a este papel como sendo o seu favorito (a par do espectacular Rufus Excalibur ffolkes em ‘North Sea Hijack’, 1979) e é também aclamado pelos críticos como uma das suas melhores performances.

E é nesta altura que o leitor se apercebe do meu grande segredo. Sim, Roger Moore é um dos meus actores favoritos. A sua capacidade de actuação, é certo, está claramente abaixo de um Robert Donat, de um Jimmy Stewart, de um Albert Finney ou de um Daniel Day-Lewis. Mas Roger Moore é Roger Moore, e está tudo dito. Moore foi acusado durante toda a sua carreira de actuar sempre da mesma maneira. Mas eu não creio que isso seja verdade. Há apenas um punhado de actores que são tão bons naquilo que fazem que têm poder suficiente para moldar os papéis que estão a interpretar a si próprios. Errol Flynn e John Wayne são dois exemplos chave. Quando vemos um filme de Wayne não estamos a ver Uncle Ethan ou Sean Thornton, mas esta ou aquela aventura do próprio Wayne. Considero George Clooney um bom exemplo disso nos dias de hoje. Roger Moore é isso levado ao extremo: o seu Santo, o seu James Bond e o seu Brett Sinclair são praticamente iguais, porque Moore tinha carisma e qualidade suficiente para levar isso avante. Obviamente, isto só resulta com actores específicos em papéis específicos. Colocar Flynn a fazer de Lincoln ou John Wayne a fazer de Bond seria o caos. Mas quando o actor e o molde da personagem se adequam, então é só relaxar, ver e desfrutar.

Mas mesmo assim, quer fazendo de ffolkes (sim, o f é minúsculo!) quer principalmente fazendo de Harold Pelham em ‘The Man Who Haunted Himself’, Moore consegue, mesmo que por breves momentos, calar os críticos, e provar que tem um espectro dramático gigantesco, que simplesmente não foi aproveitado ao longo da sua carreira. Que performance! Há uma profundidade, uma intensidade, uma instintiva força poderosa que guia a sua actuação e que muitos fãs de Bond desejariam que este tivesse tido no período pré-Craig. Mas nem Moore, nem os produtores, levavam Bond a sério na altura. Mas Moore leva Pelham extremamente a sério. Na altura ainda não era Bond (estava a 3 anos de o ser pela primeira vez), mas estava completamente rotulado como Santo (um papel que desempenhou até 1969). ‘The Man Who Haunted Himself’, um ano depois de ter acabado esta série, é o seu grito para ser tomado a sério como actor.

Isto é um filme inglês até à medula e isso nota-se bem. Toda a produção é tipicamente inglesa, os actores secundários são sólidos, e o seu realizador é Basil Dearden. Dearden limou as suas capacidades nos gloriosos estúdios Ealing na década de 1940 (realizou dois segmentos do clássico ‘Dead of Night’ de 1944) e na década de 1960 teria um estrondoso sucesso comercial com Khartoum (1966) com Charlton Heston. ‘The Man Who Haunted Himself’ é o seu último filme, visto que iria morrer num desastre de automóvel pouco tempo depois (teria ainda tempo para realizar alguns episódios da série Persuaders!, onde Moore interpreta Brett Sinclair).

Pelham é um executivo londrino. É sempre pontual, usa sempre o cinto de segurança, está sempre impecável mas monotonamente vestido. Exteriormente é o inglês típico. Interiormente contudo as coisas não parecem estar muito bem. O filme oferece pequenas referencias de que está com problemas matrimoniais, por exemplo.

Um dia Pelham tem um acidente de viação. Mas não é um acidente normal. A sequência parece saída da Twilight Zone. Moore está a conduzir normalmente mas de repente, o brilho nos seus olhos altera-se completamente, o seu sorriso torna-se maléfico, carrega o pé no acelerador, retira o sinto de segurança e despista-se… Esta sequência sozinha é suficiente para demonstrar que Moore realmente tem grandes talentos como actor. Só pelo enquadramento da câmara no seu rosto o público consegue-se aperceber da inicialmente subtil, depois abertamente denunciada transição na sua personalidade. Todos sabem como Moore consegue levantar apenas uma sobrancelha (como fez dezenas de vezes como Bond ou o Santo). Mas o que poucos alguma vez viram foi Moore a dar expressividade a outras partes do seu rosto. Se virem esta sequência, comprovarão que ele tinha o talento para fazer isso.

Depois de Pelham ter alta do Hospital (e aparentemente voltar ao seu eu), começam a acontecer coisas estranhas. Pessoas que nunca viu falam com ele como se o conhecessem. Alguém diz que esteve com ele a tantas horas em determinado sítio quando ele, e o espectador, sabem bem que isso não pode ser verdade, porque o filme mostrou Pelham noutro sítio. De repente Pelham parece passar a estar sempre em dois sítios ao mesmo tempo. Tem um duplo? É uma esquizofrenia aliada a algo saído do Twilight Zone, ou é tudo imaginação sua? A sua outra personalidade é aparentemente muito mais Mooresca; sedutora, desportista, charmosa, portanto será que Pelham se tornou numa espécie de Jekyll e Hyde? Ou então, a hipótese que o filme começa a mostrar como mais realista, será tudo um plano para o ensandecer, visto que a sua empresa está associada a um projecto ultra-secreto e a uma potencial aquisição por uma empresa maior?

Estas duas últimas hipóteses deixam de ser válidas à medida que o filme evolui, já que nos é assegurado que realmente há dois Pelhams por Londres, embora o segundo nunca é dado a conhecer ao público. O verdadeiro Pelham começa a ficar cada vez mais paranóico e Moore começa a brilhar cada vez mais no filme. Neste ponto Moore é o filme. Os seus olhos ficam insanos, o seu suor é constante, a sua voz falha com a emoção, e o seu desespero para saber a verdade é cativante e agarra o espectador ao ecrã, à medida que corre como um louco de uma ponta à outra da cidade à procura do seu outro eu. No mínimo, uma actuação excelente, nunca é de mais repetir.

E então dá-se o muito antecipado confronto, o clímax, a verdade… e a desilusão. A maneira como o filme é construído é extremamente cativante e gera muita antecipação. Mas dos inúmeros possíveis finais e possíveis justificações para os eventos que o filme retrata, a ideia que passa é que os argumentistas pensaram na pior opção possível e escreveram-na. O final não é claro e tem aquela aura semi-filosófica tão típica dos anos 1960, mas é pobre, ilógico e incongruente, para além de ter uma música beat completamente fora de contexto. Moore olha para o céu, com um olhar resignado de ‘ah, agora compreendo’, mas o público fica a coçar a cabeça. É uma pena grande e retira a maior parte do valor ao filme (os filmes devem valer como um todo). Até esse ponto até estava a desfrutar bastante…

Mesmo assim parece-me que este filme é ousado e até historicamente relevante. Poucos filmes vi antes de 1970 com este clima e este twist de último minuto, pelo que terá inspirado, em certa medida, este conceito muito em voga nos anos 1990 e os filmes de ‘paranóia’ dos anos 1970. Mas explicar um filme de ‘paranóia’ com um final filosófico é um risco demasiado grande, que neste caso não resulta. É um filme que, justificadamente, caiu no esquecimento, mas ao qual se deve limpar o pó de quando em quando, nem que seja só para desfrutar da performance de Sir Roger Moore. Este poderá não ser o seu papel mais cativante, nem o mais popular, mas é certamente o papel no qual colocou o seu maior esforço como actor. Portanto, para quem é fã do seu trabalho, é imperdível.

Numa nota engraçada, é de não perder a frase que Moore pronuncia no início do filme quando está a discutir espionagem empresarial: ‘Espionage isn't all James Bond on Her Majesty's Secret Service. Industry goes in for it too, you know’. Devia já ter um pressentimento do que iria acontecer 3 anos mais tarde…


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Miguel. Portuense. Nasceu quando era novo e isso só lhe fez bem aos ossos. Agora, com 31 anos, ainda está para as curvas. O primeiro filme que viu no cinema foi A Pequena Sereia, quando tinha 5 anos, o que explica muita coisa. Desde aí, olhou sempre para trás e a história do cinema tornou-se a sua história. Pode ser que um dia consiga fazer disto vida, mas até lá, está aqui para se divertir, e partilhar com o insuspeito leitor aquilo que sente e é, quando vê Cinema.

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